Mufid Majnun/Unsplash
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A gripe, causada pelo vírus influenza, é uma das infecções respiratórias mais comuns e pode ter consequências graves, especialmente para grupos de risco. Diferente de muitas outras vacinas, a imunização contra a gripe precisa ser repetida anualmente. Mas você já se perguntou por que e, mais importante, como é decidido quais variantes do vírus estarão na vacina de cada ano? A resposta reside em uma complexa e sofisticada rede global de vigilância coordenada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que trabalha incansavelmente para monitorar as mutações do influenza e proteger a população mundial.

O inimigo em constante mutação: o vírus influenza

O vírus influenza é conhecido por sua notável capacidade de mutação, o que o torna um alvo desafiador para a ciência. Existem quatro tipos principais de vírus influenza (A, B, C e D), mas os tipos A e B são os que causam as epidemias sazonais em humanos. A variação genética do vírus ocorre principalmente por dois mecanismos: a <b>deriva antigênica</b> (<i>antigenic drift</i>) e a <b>reassortimento genético</b> (<i>antigenic shift</i>).

Deriva antigênica e reassortimento genético

A <i>deriva antigênica</i> é um processo de pequenas e contínuas mutações nos genes que codificam as proteínas de superfície do vírus, a hemaglutinina (HA) e a neuraminidase (NA). Essas proteínas são reconhecidas pelo sistema imunológico, e pequenas mudanças podem permitir que o vírus escape dos anticorpos previamente desenvolvidos por infecções anteriores ou vacinação. É por isso que a imunidade adquirida contra uma cepa específica pode não ser eficaz contra uma cepa ligeiramente modificada no ano seguinte, exigindo uma nova vacina anualmente.

O <i>reassortimento genético</i>, por sua vez, é um evento mais drástico e menos frequente, onde diferentes subtipos de vírus influenza trocam material genético. Isso geralmente ocorre quando um mesmo hospedeiro (humano ou animal) é infectado por duas cepas diferentes simultaneamente, criando um novo subtipo de vírus. O reassortimento pode levar ao surgimento de vírus com características antigênicas completamente novas, capazes de causar pandemias, como o H1N1 em 2009, pois a população tem pouca ou nenhuma imunidade pré-existente.

A vigilância global da OMS: olhos e ouvidos do planeta contra o influenza

Para combater um inimigo tão dinâmico, a OMS coordena uma <b>Rede Global de Vigilância e Resposta à Gripe</b> (GISRS – Global Influenza Surveillance and Response System), composta por Centros Nacionais de Influenza (CNI) em mais de 150 países, seis Centros Colaboradores da OMS (CCs) e 12 Laboratórios de Referência e Avaliação de Vacinas (VRDLs). Essa rede é a espinha dorsal da estratégia de prevenção global.

Como funciona a rede de vigilância

Os CNIs são responsáveis por coletar amostras de pacientes com síndrome gripal em suas respectivas regiões. Essas amostras são então analisadas para identificar o tipo e subtipo do vírus influenza circulante, além de realizar a sequenciação genética para detectar mutações. Os dados e as amostras virais mais relevantes são enviados para os Centros Colaboradores da OMS, localizados em importantes centros de pesquisa e saúde ao redor do mundo, como Atlanta (EUA), Londres (Reino Unido), Melbourne (Austrália), Pequim (China), Tóquio (Japão) e Genebra (Suíça).

Nesses CCs, cientistas de ponta realizam análises aprofundadas, como estudos antigênicos e genéticos, para entender como os vírus estão evoluindo e se estão adquirindo resistência a medicamentos antivirais. A OMS compila esses dados de vigilância de todo o globo, permitindo uma visão abrangente e em tempo real da epidemiologia molecular do influenza.

O processo de seleção das cepas para a vacina anual

A decisão sobre quais cepas incluir na vacina anual da gripe não é arbitrária, mas sim o resultado de um consenso científico meticuloso. Duas vezes por ano, geralmente em fevereiro para a vacina do hemisfério norte e em setembro para o hemisfério sul, a OMS convoca um painel de especialistas em gripe. Esses encontros reúnem virologistas, epidemiologistas e especialistas em saúde pública de todo o mundo para revisar os dados mais recentes da rede de vigilância.

Durante as reuniões, são analisados critérios como a prevalência de diferentes cepas em circulação, a virulência observada, a semelhança antigênica com as cepas das vacinas anteriores e, crucialmente, as previsões sobre a evolução futura do vírus. Com base nessas informações complexas, o painel faz uma recomendação global sobre as cepas de influenza A (H1N1 e H3N2) e influenza B (das linhagens Victoria e Yamagata) que devem ser incluídas na formulação da vacina para a próxima temporada de gripe.

Da recomendação à produção e proteção

Assim que a OMS emite suas recomendações, as empresas farmacêuticas em todo o mundo iniciam o desafiador e demorado processo de fabricação das vacinas. A produção em larga escala leva vários meses, geralmente entre cinco e seis meses, utilizando tecnologias como o cultivo em ovos embrionados de galinha ou, mais recentemente, em culturas de células.

Este prazo apertado significa que a decisão da OMS precisa ser feita com bastante antecedência, baseando-se nas previsões de quais cepas serão mais prevalentes. A eficácia da vacina depende, em grande parte, da precisão dessa previsão. Se as cepas circulantes no período da gripe forem muito diferentes das que foram selecionadas para a vacina, sua proteção pode ser reduzida, embora ainda ofereça algum nível de imunidade cruzada.

Impacto e desafios contínuos

O sistema global de vigilância do influenza é um exemplo notável de colaboração internacional em saúde pública. Graças a ele, milhões de vidas são protegidas anualmente contra as formas mais graves da gripe. No entanto, os desafios persistem. A emergência de novas cepas zoonóticas com potencial pandêmico, a hesitação vacinal em algumas comunidades e a necessidade de garantir acesso equitativo às vacinas em países de baixa renda são questões que demandam atenção contínua e inovação.

A pesquisa por uma 'vacina universal' contra a gripe, que ofereça proteção duradoura contra múltiplas cepas e subtipos, é um objetivo ambicioso que poderia revolucionar a prevenção do influenza. Enquanto isso não se concretiza, a vigilância constante e a adaptação anual da vacina continuam sendo nossas ferramentas mais poderosas.

A complexidade por trás da vacina anual da gripe é um testemunho da ciência dedicada a proteger a saúde global. Cada dose de vacina representa um esforço monumental de cientistas e profissionais de saúde ao redor do mundo. Mantenha-se informado sobre este e outros temas cruciais para a nossa comunidade e o planeta, navegando por mais conteúdo aprofundado e relevante aqui no São José Mil Grau. Sua curiosidade move a nossa missão de levar informação de qualidade até você!

Fonte: https://www.metropoles.com

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