Santa Catarina, com sua deslumbrante costa e intensa atividade turística, encontra-se no epicentro de um dos mais complexos dilemas da gestão ambiental e urbana contemporânea: o alargamento de praias. De acordo com dados do Tribunal de Contas do Estado (TCE-SC), o litoral catarinense detém o maior número de intervenções desse tipo no Brasil, somando ao menos nove praias com obras já concluídas e outros dois projetos em fase de planejamento. Contudo, por trás dos investimentos milionários destinados à recuperação de faixas de areia erodidas pela incessante força do mar, emerge um desafio crucial: como conciliar a necessidade de proteger o patrimônio natural e a infraestrutura costeira com a preservação ambiental a longo prazo? Esta reportagem especial aprofunda-se na realidade catarinense, explorando os custos, os impactos e a busca por soluções duradouras para um litoral em constante transformação.
Contextualizando a erosão costeira e suas causas em Santa Catarina
A erosão costeira é um fenômeno natural agravado por múltiplos fatores, tanto climáticos quanto antrópicos. Em Santa Catarina, a dinâmica das marés, a ocorrência de ressacas cada vez mais intensas – um reflexo das mudanças climáticas globais e da elevação do nível do mar – e a urbanização desordenada próxima à orla contribuem para o constante recuo da linha da costa. Esse processo não apenas ameaça ecossistemas sensíveis, como dunas e mangues, mas também coloca em risco edificações, infraestruturas turísticas e a segurança de moradores e visitantes. O engordamento artificial de praias surge, nesse contexto, como uma medida paliativa e, em alguns casos, emergencial para restaurar as faixas de areia perdidas, visando proteger a orla e manter a atratividade turística.
O mapeamento das intervenções e os custos milionários
O volume de recursos investidos em projetos de alargamento de praias em Santa Catarina é expressivo. As intervenções já realizadas no estado totalizam, até o momento, pelo menos R$ 178 milhões, um montante significativo que reflete a urgência e a escala do problema. Das nove praias que passaram por esse tipo de obra, três estão localizadas em Florianópolis – capital e um dos principais destinos turísticos do Brasil. Estas obras, que envolvem a dragagem de areia de fundos marinhos e sua posterior deposição na orla, têm como objetivo ampliar a faixa de areia, criando uma barreira natural contra o avanço do mar e oferecendo mais espaço para lazer e turismo. No entanto, a complexidade dessas megaobras impõe um duplo desafio: viabilizar financeiramente esses investimentos e, simultaneamente, assegurar a integridade ambiental e a durabilidade das soluções adotadas.
Casos emblemáticos: a areia que volta a desaparecer
Pioneira no estado, Balneário Piçarras realizou sua primeira obra de alargamento em 1998. Ao longo de 25 anos, a orla precisou de outras quatro intervenções, com a mais recente concluída em abril de 2026 a um custo de R$ 24,2 milhões. A prefeitura justifica a recorrência pela dinâmica costeira e características dos sedimentos, vendo o alargamento como uma 'reserva adicional' em um processo contínuo de erosão, que gerencia seus efeitos sem eliminar o problema.
Na Praia dos Ingleses, em Florianópolis, após um alargamento em 2023 (R$ 23 milhões), a orla sofreu perdas expressivas. Em 2025, uma forte ressaca causou prejuízos a 12 propriedades e infraestruturas, evidenciando a vulnerabilidade pós-intervenção. A prefeitura estuda a recomposição dos 200 metros afetados, mas o caso sublinha a durabilidade e resistência das obras diante de eventos climáticos extremos.
O biólogo Paulo Horta, professor do Departamento de Botânica da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), alerta sobre a curta longevidade e a 'falsa sensação de segurança' que esses investimentos podem gerar. Ele enfatiza que, em cenário de elevação do nível do mar e agravamento da crise climática, os resultados muitas vezes não justificam o volume de recursos aplicados, embora admita o alargamento como alternativa em áreas urbanizadas com erosão acentuada.
Os impactos ambientais e a busca por sustentabilidade
A dragagem de areia dos fundos marinhos, essencial ao processo, impacta ecossistemas bentônicos e a cadeia alimentar, além de alterar a granulometria da areia receptora, afetando fauna e flora locais. O aumento da turbidez da água é outro fator prejudicial. Estudos de impacto rigorosos, monitoramento contínuo e busca por fontes de areia ecologicamente menos danosas são cruciais para mitigar esses riscos e assegurar que a intervenção não crie novos desequilíbrios.
A atuação dos órgãos de controle e a necessidade de governança
Diante da complexidade e dos altos investimentos, a fiscalização e a boa governança se tornam pilares fundamentais. O Tribunal de Contas do Estado de Santa Catarina (TCE-SC) tem desempenhado um papel ativo nesse cenário. Em janeiro de 2026, o órgão publicou uma nota técnica detalhada, cujo objetivo é orientar os gestores municipais na elaboração de projetos e na condução de licitações para obras de engordamento de praias. A iniciativa visa aprimorar a qualidade técnica dos projetos, prevenir prejuízos aos cofres públicos e garantir que as intervenções sejam mais seguras e duradouras. A transparência na aplicação dos recursos e a conformidade com as normas ambientais e urbanísticas são cruciais para que esses projetos cumpram seus objetivos sem gerar passivos futuros.
Perspectivas futuras: além do alargamento
Embora o alargamento de praias seja uma estratégia utilizada em muitas partes do mundo, a recorrência das intervenções e os desafios ambientais impulsionam a busca por soluções mais integradas e sustentáveis. A combinação de engordamento com outras técnicas, como a restauração de dunas, o plantio de vegetação costeira e a construção de barreiras naturais, pode oferecer uma proteção mais resiliente. Além disso, a adaptação às mudanças climáticas e a gestão costeira integrada, que envolvem o planejamento urbano, a legislação e a participação comunitária, são essenciais para um futuro mais seguro e equilibrado para as praias catarinenses. A pesquisa científica e a inovação tecnológica também desempenham um papel vital na busca por alternativas eficazes e de menor impacto.
A gestão das praias em Santa Catarina é um desafio multifacetado que exige planejamento rigoroso, investimentos inteligentes e um olhar atento para a sustentabilidade. A complexidade de conciliar o desenvolvimento urbano e turístico com a preservação de um dos mais belos litorais do país continuará a pautar debates e exigir soluções inovadoras. Para ficar por dentro de todas as notícias, análises aprofundadas e os desdobramentos desse e de outros temas cruciais que impactam nossa região, continue navegando no São José Mil Grau. Sua fonte completa de informação e conteúdo relevante sobre Santa Catarina.
Fonte: https://g1.globo.com