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Uma importante atualização nas diretrizes médicas está chamando a atenção para a saúde cardiovascular de adultos em todo o mundo. A recomendação agora é que todos os adultos realizem, ao menos uma vez na vida, um exame para medir os níveis de lipoproteína(a) – frequentemente abreviada como Lp(a). Esta alteração genética, muitas vezes subestimada, está diretamente associada a um aumento significativo do risco de desenvolvimento de doenças cardiovasculares, como infarto e acidente vascular cerebral. A nova orientação visa aprimorar a detecção precoce de um fator de risco independente, permitindo intervenções mais assertivas e personalizadas.

O que é a lipoproteína(a) e por que ela é diferente?

Para entender a relevância da nova diretriz, é fundamental compreender o que é a lipoproteína(a). Diferente do colesterol LDL (o chamado "colesterol ruim") ou HDL (o "colesterol bom"), a Lp(a) é uma partícula lipídica no sangue cuja concentração é determinada predominantemente pela genética. Ou seja, os níveis de Lp(a) são, em grande parte, hereditários e pouco influenciados por fatores de estilo de vida, como dieta e exercícios físicos. Estruturalmente, a Lp(a) é semelhante ao LDL, mas possui uma proteína adicional chamada apolipoproteína(a) ligada a ela. É essa característica extra que confere à Lp(a) propriedades aterogênicas e protrombóticas únicas.

Em termos mais simples, a Lp(a) pode contribuir para o acúmulo de placas de gordura nas artérias (aterosclerose) e também aumentar a tendência de formação de coágulos sanguíneos, elevando o risco de eventos cardiovasculares graves. A sua presença em níveis elevados age como um fator de risco independente, o que significa que, mesmo em indivíduos com níveis de colesterol LDL considerados normais e sem outros fatores de risco tradicionais (como diabetes ou hipertensão), uma Lp(a) alta pode indicar um perigo significativo.

A urgência da nova diretriz: evidências científicas e o cenário atual

A recomendação de rastreamento universal da Lp(a) não surgiu do nada. Ela é o resultado de décadas de pesquisas e de um corpo crescente de evidências científicas que demonstram consistentemente a forte associação entre níveis elevados de Lp(a) e o aumento do risco de doenças cardiovasculares ateroscleróticas (DCVA), incluindo infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral isquêmico e estenose aórtica. Estudos populacionais e metanálises têm revelado que cerca de 20% da população mundial possui níveis de Lp(a) elevados, o que a torna um dos fatores de risco genéticos mais comuns para doenças cardíacas.

Historicamente, o foco principal na prevenção de doenças cardiovasculares tem sido nos fatores de risco modificáveis, como colesterol total, LDL, HDL, triglicerídeos, pressão arterial, glicemia, tabagismo e obesidade. Contudo, a Lp(a) representa uma lacuna importante nessa avaliação. Muitos indivíduos que sofrem eventos cardiovasculares precoces ou recorrentes não se encaixam no perfil de risco tradicional, e a Lp(a) pode ser a peça que faltava no quebra-cabeça do seu risco genético. A nova diretriz busca preencher essa lacuna, permitindo que médicos e pacientes tenham uma visão mais completa do risco cardiovascular individual.

Quem deve fazer o exame e quais os próximos passos?

A principal recomendação é que todos os adultos realizem o exame de Lp(a) pelo menos uma vez na vida. No entanto, o rastreamento é particularmente crítico para certos grupos, como: indivíduos com histórico familiar de doença cardiovascular prematura (infarto ou AVC em parentes de primeiro grau antes dos 55 anos para homens e 65 para mulheres); pessoas com histórico de DCVA sem causas tradicionais claras; pacientes com colesterol LDL elevado que não respondem adequadamente à terapia com estatinas; e aqueles com estenose aórtica, uma condição de estreitamento da válvula aórtica que tem sido associada à Lp(a). O exame é simples, feito através de uma amostra de sangue, e não requer preparo especial, como jejum.

Uma vez que os níveis de Lp(a) são conhecidos, a abordagem de tratamento e prevenção se torna mais específica. Embora atualmente não existam medicamentos amplamente disponíveis que reduzam drasticamente a Lp(a) para a maioria dos pacientes, o conhecimento de um nível elevado é crucial para intensificar o controle de outros fatores de risco modificáveis. Isso pode incluir um manejo mais rigoroso do colesterol LDL, pressão arterial, glicemia e a promoção de um estilo de vida saudável. Além disso, o diagnóstico permite uma discussão mais aprofundada sobre o risco do paciente e a possibilidade de terapias emergentes. A pesquisa farmacológica está avançada no desenvolvimento de medicamentos específicos para reduzir a Lp(a), com alguns já em fases finais de testes clínicos, prometendo uma nova era no tratamento cardiovascular.

Impacto na saúde pública e a importância da conscientização

A implementação da nova diretriz tem o potencial de causar um impacto significativo na saúde pública. Ao identificar indivíduos com risco genético elevado de forma precoce, é possível intervir antes que eventos cardiovasculares ocorram, reduzindo a morbidade e mortalidade associadas a essas doenças. Contudo, para que essa diretriz seja eficaz, é fundamental que haja uma ampla conscientização – tanto entre os profissionais de saúde quanto na população em geral. Médicos precisam estar cientes da importância do rastreamento e de como interpretar os resultados, enquanto o público precisa entender por que este exame é relevante para a sua saúde.

A inclusão do exame de Lp(a) na rotina de avaliação de risco cardiovascular representa um avanço na medicina personalizada. Ela nos lembra que a saúde do coração é multifatorial e que a genética desempenha um papel crucial, muitas vezes oculto. Ao abraçar esta nova recomendação, estamos dando um passo importante para um futuro onde a prevenção de doenças cardiovasculares seja ainda mais precisa e eficaz, salvando vidas e melhorando a qualidade de vida de milhares de pessoas.

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Fonte: https://www.metropoles.com

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