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A detecção de um foco da doença de Newcastle (DNC) em uma granja comercial de perus no município de Nova Itaberaba, em Santa Catarina, acendeu um alerta sanitário de nível internacional, colocando em perspectiva a interrupção temporária das exportações de carne de frango do Brasil para a China. Esta medida, prevista em um rigoroso protocolo sanitário bilateral, ressalta a importância da biossegurança na avicultura brasileira, um dos pilares da economia do país e um dos maiores exportadores globais de carne de aves. A situação exige uma resposta rápida e transparente do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) para conter a doença e mitigar os impactos econômicos em um mercado que é o principal destino da proteína avícola brasileira.

O que é a doença de Newcastle e por que ela é uma ameaça?

A doença de Newcastle é uma enfermidade viral altamente contagiosa que afeta aves domésticas e silvestres em todo o mundo. Causada por um paramyxovirus aviário, ela se manifesta de diversas formas, desde subtipos brandos até as variantes velogênicas, que são extremamente virulentas e letais. Os sintomas podem variar amplamente, incluindo problemas respiratórios (tosse, espirros, dificuldade para respirar), nervosos (tremores, paralisia, torcicolo), digestivos (diarreia) e reprodutivos (queda na produção de ovos). Em casos graves, a taxa de mortalidade pode chegar a 100% em aves jovens, tornando-a uma das maiores preocupações sanitárias para a indústria avícola global.

A transmissão da DNC ocorre principalmente pelo contato direto entre aves infectadas, mas também pode se dar através de equipamentos, ração, água, roupas e veículos contaminados. Embora o vírus da Newcastle não represente um risco significativo para a saúde humana – podendo causar apenas uma conjuntivite leve e transitória em pessoas que manipulam aves doentes –, seu impacto econômico para o setor avícola é devastador. A ocorrência da doença pode levar ao sacrifício de plantéis inteiros, interdição de granjas, e, crucialmente, ao fechamento de mercados internacionais, como o que está em discussão com a China e já se concretizou com o México.

Mecanismos do protocolo sanitário Brasil-China

A relação comercial entre Brasil e China no setor avícola é regida por um protocolo sanitário rigoroso, desenhado para proteger a segurança alimentar e a saúde animal de ambos os países. Este acordo estabelece que, ao identificar um foco de doença infecciosa aviária, como a DNC ou a influenza aviária, o Ministério da Agricultura brasileiro deve suspender preventivamente as exportações para o país asiático. Esta medida não é punitiva, mas sim uma precaução que permite às autoridades chinesas avaliarem a extensão do problema e as ações de contenção adotadas pelo Brasil.

Após a notificação e a suspensão inicial, o governo brasileiro tem a responsabilidade de comunicar à China todas as medidas implementadas para conter e erradicar o foco da doença, bem como comprovar o restabelecimento das condições sanitárias exigidas pelo acordo. A partir dessas informações, as autoridades chinesas decidem o alcance das restrições. O embargo pode ser mantido para todo o território brasileiro ou, em cenários mais favoráveis, ser restrito à região afetada, permitindo que outras áreas consideradas livres da doença continuem exportando. A agilidade e a transparência na comunicação são fundamentais para minimizar o período de restrição e o impacto econômico.

O precedente do Rio Grande do Sul em 2024

Um episódio similar ocorreu em 2024, quando o Brasil registrou um foco da doença de Newcastle em aves comerciais no Rio Grande do Sul. Naquela ocasião, as exportações brasileiras de carne de frango para a China foram temporariamente suspensas em 19 de julho. Após 26 dias de avaliação e diálogo entre as autoridades sanitárias, a China oficializou a retomada das importações, mas manteve o embargo para produtos provenientes especificamente do Rio Grande do Sul. Este bloqueio regional para empresas gaúchas perdurou até janeiro deste ano, evidenciando que, embora o protocolo permita uma flexibilização geográfica, as consequências podem ser duradouras para as regiões afetadas. Este histórico serve como um importante indicativo para o que pode ocorrer com Santa Catarina.

Impactos econômicos e a reação internacional

O Brasil é um gigante na produção e exportação de carne de aves, sendo o maior exportador mundial do produto. A China se consolidou como o principal comprador, absorvendo um volume significativo da produção brasileira e garantindo receitas expressivas para o agronegócio nacional. Uma interrupção, mesmo que temporária, dessas vendas, representa um duro golpe para a balança comercial e para a cadeia produtiva, que envolve desde pequenos produtores até grandes frigoríficos. A incerteza quanto à duração e ao alcance do embargo gera apreensão em todo o setor.

Além da China, outros mercados importantes reagiram prontamente. Na segunda-feira (19), o México, outro relevante comprador da carne de frango brasileira, anunciou a suspensão imediata da importação de carne de frango e outros produtos avícolas, incluindo aves vivas e ovos férteis. A Secretaria de Agricultura e Desenvolvimento Rural do México justificou a medida como uma forma de proteger sua produção avícola nacional, que é considerada livre da DNC. A agilidade na reação de outros países reforça a gravidade da situação e o potencial para um efeito dominó caso o foco não seja rapidamente controlado e comunicado de forma eficaz.

Medidas de contenção em Santa Catarina e segurança alimentar

Na granja de Nova Itaberaba, Santa Catarina, onde o foco da doença foi identificado em cerca de 6 mil perus, o Serviço Veterinário Oficial agiu rapidamente. A propriedade foi interditada, e as autoridades iniciaram uma série de ações coordenadas para conter e erradicar a doença. Isso inclui o sacrifício sanitário dos animais doentes, a limpeza e desinfecção rigorosa das instalações, e a restrição da movimentação de aves, produtos e veículos na área afetada.

O Ministério da Agricultura, em conjunto com a Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina (Cidasc), reforçou a vigilância sanitária em propriedades vizinhas e em toda a região para identificar precocemente qualquer nova ocorrência. Essas ações seguem as diretrizes do plano nacional de contingência para doenças aviárias, que visa a proteção do plantel nacional. É crucial ressaltar que, conforme comunicado pelo Mapa e pela Cidasc, não há risco para a população. O consumo de carne de aves e ovos provenientes de estabelecimentos submetidos à inspeção oficial permanece seguro, pois os controles sanitários garantem que apenas produtos saudáveis cheguem à mesa do consumidor, e o vírus não representa perigo para humanos através do consumo.

Perspectivas futuras e o papel do São José Mil Grau

O desafio imediato é a erradicação completa do foco em Santa Catarina e a comunicação eficaz com os parceiros comerciais para restabelecer a confiança e a fluidez das exportações. A experiência passada com o Rio Grande do Sul sugere que, com medidas sanitárias robustas e transparência, é possível reverter as restrições, mesmo que regionalmente. A avicultura brasileira, com seu histórico de rigor sanitário, está agora focada em demonstrar sua capacidade de resposta e em garantir a segurança de seus produtos para o mercado global.

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Fonte: https://g1.globo.com

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