O caso de Amanda Maria Souza de Oliveira, uma mulher de 37 anos que conseguiu se passar por uma adolescente de 12 e viver por 14 meses como filha adotiva em Joinville, Santa Catarina, revela uma intrincada teia de enganos que se estende por, pelo menos, cinco estados brasileiros. A recente prisão de Amanda em flagrante, posteriormente convertida em preventiva, desvenda um modus operandi complexo e alarmante, caracterizado por manipulação psicológica e histórias de vulnerabilidade cuidadosamente elaboradas. As investigações da Polícia Civil de Santa Catarina e os relatos de vítimas anteriores, como Viviane Henriques no Rio de Janeiro, pintam um quadro de uma golpista que explorava a compaixão e a solidariedade, deixando um rastro de desilusão e prejuízos.
A Decepção em Joinville: 14 Meses de uma Vida Falsa
Em Joinville, Amanda Maria, apresentando-se como Gabriele, conseguiu se infiltrar na vida de uma família, vivendo sob seu teto por mais de um ano. A abordagem inicial, segundo o delegado Rodrigo Bueno Gusso, responsável pelo caso, deu-se por intermédio de um pastor de igreja. A mulher primeiramente alegou ter 18 anos e buscar uma oportunidade de emprego na área de panificação. No entanto, sua narrativa rapidamente evoluiu para um cenário de extrema vulnerabilidade.
Após conquistar a confiança do casal, Amanda Maria mudou sua versão, afirmando ter apenas 11 anos de idade e ser vítima de maus-tratos e abusos em sua cidade natal, no Pará. Essa alteração drástica na idade e o relato de um passado traumático tocaram profundamente a família, que, movida pela compaixão e acreditando estar acolhendo uma criança em situação de risco, ofereceu-lhe moradia e cuidados. O nível de envolvimento da família chegou ao ponto de organizarem uma festa de 12 anos para 'Gabriele', celebrando o que eles acreditavam ser seu aniversário, um detalhe que sublinha a profundidade da manipulação.
Para justificar sua aparência adulta, a golpista alegava falsamente ter autismo e outras condições clínicas, utilizando-se ainda de uma história fictícia de uso forçado de hormônios durante a infância, que seria resultado dos abusos sofridos em uma casa de prostituição. Comportamentos infantilizados eram constantemente encenados, consolidando a imagem de uma adolescente frágil e necessitada de proteção. A farsa começou a ruir quando parentes da família acolhedora levantaram suspeitas, levando à intervenção policial e à descoberta da verdadeira identidade e idade de Amanda Maria.
O Precedente em Nova Iguaçu: 'Falava como Criança'
O caso de Joinville não foi um incidente isolado. Meses antes, em junho de 2023, Amanda Maria já havia sido presa em Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, sob suspeita de aplicar golpes semelhantes. Lá, ela conseguiu ludibriar Viviane Henriques, coordenadora de um projeto social, que se tornou uma de suas vítimas. Apresentando-se como 'Maria Eduarda', a mulher de 37 anos usou uma história ainda mais elaborada para sensibilizar Viviane e a comunidade local.
Por meio de uma mensagem em rede social, Amanda contatou Viviane, dizendo ser do Ceará, ter sido abusada pelo pai, fugido de uma casa de prostituição com um caminhoneiro e estar no Rio precisando de ajuda. A história comovente, aliada ao comportamento infantilizado e à alegação de autismo — ela, inclusive, 'pesquisava como se comportar como autista' e 'como fazer desenho que indicava abuso sexual', conforme Viviane — levou à mobilização de amigos e voluntários. Eles alugaram uma casa para 'Duda', alternaram-se nos cuidados e, em um ato de extrema dedicação, ofereciam mamadeira e chupeta à mulher, acreditando que ela era uma adolescente obesa com autismo.
A capacidade de Amanda de sustentar o disfarce, incluindo a fala infantilizada, é um testemunho da complexidade de sua estratégia de manipulação. A prisão anterior em Nova Iguaçu, onde foi apresentada com uma idade divergente (42 anos, embora a Polícia Civil de Santa Catarina confirme 37), demonstra a natureza recorrente de seus golpes e a habilidade de alterar detalhes para cada nova vítima ou contexto.
O Modus Operandi da Manipulação: Um Padrão de Enganos
A análise dos casos de Joinville e Nova Iguaçu revela um padrão bem definido no modus operandi de Amanda Maria Souza de Oliveira. Em todos os cenários, a golpista empregava uma combinação de falsidade ideológica, simulação de condições de saúde e exploração de narrativas de abuso e abandono para despertar a compaixão de suas vítimas. Sua capacidade de construir e manter personas fictícias, como Gabriele e Maria Eduarda, é um fator central em suas ações.
Elementos-Chave da Estratégia
Primeiramente, a **falsificação da idade** era primordial. Reduzir sua idade adulta para a de uma criança ou adolescente em situação de vulnerabilidade instantly acionava o instinto protetor de suas vítimas. Em seguida, a **invenção de um passado traumático**, como abusos sexuais, exploração em casas de prostituição e fugas dramáticas, servia para criar uma aura de fragilidade e urgência, justificando a necessidade de acolhimento imediato.
A **simulação de condições de saúde**, como autismo ou outras enfermidades que pudessem justificar traços físicos adultos ou comportamentos infantis, era outro pilar de sua estratégia. A história sobre o uso forçado de hormônios, por exemplo, era uma forma engenhosa de explicar sua aparência física incompatível com a idade que alegava ter. Há também o relato de que, em 2023, a golpista procurou um hospital infantil com agulhas no corpo, um ato que, se confirmado como parte do esquema, reforça sua disposição em se automutilar para sustentar a farsa e gerar compaixão. A diligência em 'pesquisar como se comportar como autista' denota um planejamento meticuloso na construção dessas identidades falsas.
A escolha de suas vítimas também parece estratégica, visando indivíduos e instituições com forte senso de responsabilidade social, como coordenadores de projetos sociais e líderes religiosos. A busca por auxílio em igrejas e projetos sociais demonstra uma compreensão de onde encontrar pessoas mais propensas a oferecer ajuda humanitária sem questionar profundamente.
Implicações Legais e o Exame de Sanidade Mental
A conversão da prisão em flagrante de Amanda Maria para prisão preventiva sublinha a gravidade das acusações e a necessidade de mantê-la sob custódia enquanto as investigações prosseguem. Diante da complexidade do caso e do padrão de comportamento da investigada, a defesa, por meio do advogado dativo Rafael Luiz Siewert, solicitou a realização de exames de sanidade mental. O juízo acolheu o pedido, determinando uma perícia oficial para avaliar sua condição psíquica.
Esse exame é crucial para entender se as ações de Amanda são motivadas por alguma condição de saúde mental que possa afetar sua capacidade de discernimento ou sua responsabilidade legal. Independentemente dos resultados, os crimes de estelionato e falsidade ideológica, entre outros que possam ser comprovados, acarretam sérias implicações legais. A decisão judicial e a perícia são passos importantes para garantir que o desfecho do caso seja justo e que a amplitude dos golpes seja totalmente compreendida.
Alertas e a Importância da Verificação
O caso de Amanda Maria serve como um doloroso lembrete da fragilidade das relações de confiança e da importância da verificação, mesmo em situações que apelam à mais profunda empatia. A capacidade da golpista de explorar a boa-fé de indivíduos e comunidades destaca a necessidade de projetos sociais e famílias adotivas desenvolverem protocolos mais rigorosos de checagem de antecedentes e validação de informações, especialmente quando se trata de indivíduos em suposta situação de vulnerabilidade extrema. Embora a solidariedade seja um pilar fundamental de nossa sociedade, a manipulação sistemática como a praticada por Amanda Maria exige uma abordagem cautelosa para proteger tanto as vítimas dos golpes quanto a integridade das instituições de apoio.
A história de Amanda Maria Souza de Oliveira, com suas múltiplas identidades e um rastro de enganos por diversos estados, é um alerta contundente sobre os perigos da manipulação e a complexidade do comportamento criminoso. Para aprofundar-se em outras notícias impactantes e análises detalhadas do cenário local e nacional, continue navegando pelo São José Mil Grau. Fique por dentro dos fatos que moldam nossa comunidade e do jornalismo que vai além da superfície, trazendo informações cruciais para você.
Fonte: https://g1.globo.com