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A dinâmica de conciliar a maternidade com o empreendedorismo já é complexa por si só, mas quando o negócio familiar se expande para incluir os próprios filhos como colaboradores, os desafios se intensificam e adquirem nuances únicas. Em Santa Catarina, diversas mulheres empreendedoras se veem diante da tarefa de gerenciar equipes que incluem seus herdeiros, transformando as relações de trabalho em um intricado balé entre autoridade profissional e laços afetivos. Este cenário, embora desafiador, também revela histórias de resiliência, adaptação e sucesso, onde o amor incondicional precisa ceder espaço, em certos momentos, à hierarquia e às exigências do mundo corporativo.

Josiane Machado, sócia de um renomado restaurante de frutos do mar com três unidades estratégicas no litoral catarinense – em Governador Celso Ramos, Florianópolis e Itapema – vivencia essa realidade diariamente. Ela comanda seus estabelecimentos enquanto lida com a complexidade de ter seu filho como parte integrante da equipe. A ambiguidade de papéis é constante: “Tem hora que ele é meu sócio, tem hora que ele é meu funcionário, tem hora que ele é meu filho”, comenta Josiane, ilustrando a fluidez e a constante redefinição das interações em seu ambiente de trabalho.

A delicada linha entre o afeto materno e a autoridade empresarial

Para que a coexistência de laços familiares e profissionais seja produtiva, especialistas apontam a necessidade de limites bem definidos. A psicóloga Rosa Maria Maia Lavio de Oliveira enfatiza a importância de estabelecer clareza nas funções e expectativas. Segundo ela, os filhos que atuam nas empresas maternas devem reconhecer a figura da mãe não apenas como provedora de afeto, mas também como líder, gestora e empreendedora dentro da estrutura organizacional. “Se a mãe fala: ‘você vai entrar tal hora e sair tal hora’, você tem o horário ‘x’ de almoço e você tem tal horário para voltar. Assim, a coisa funciona muito bem e a empresa cresce”, explica a especialista, ressaltando que a disciplina e o respeito às regras são pilares para o bom funcionamento do negócio e para a manutenção de um ambiente de trabalho saudável.

A ausência desses limites claros pode gerar uma série de complicações. Quando os filhos, por exemplo, não compreendem seu papel hierárquico e tentam exercer influência indevida sobre a equipe ou decisões apenas por conta do vínculo familiar, podem surgir desgastes significativos. A psicóloga alerta que isso pode levar a uma percepção de privilégio por parte de outros funcionários, minando a moral e o senso de justiça na equipe. Conflitos internos se tornam mais frequentes e, em casos extremos, a tensão pode transbordar para a esfera pessoal, impactando negativamente a relação familiar fora do expediente. O equilíbrio, portanto, é uma busca constante que exige comunicação assertiva e a capacidade de separar os chapéus de mãe e chefe em momentos estratégicos.

O restaurante de frutos do mar: uma história de gerações e desafios

A história do restaurante de Josiane Machado é marcada por mais de três décadas de sucesso e adaptações. Guilherme Machado Sagas, seu filho, de 25 anos, nasceu quando o empreendimento já era uma realidade consolidada, com uma década de existência. Crescer em meio aos aromas e ao dinamismo de um negócio familiar de sucesso parecia natural, mas sua verdadeira imersão e compromisso profissional só vieram durante a pandemia de COVID-19. Foi nesse período de incertezas e transformações que Guilherme decidiu trancar o curso de direito para se dedicar integralmente ao negócio da família.

Sua chegada, munida de novas ideias e um olhar moderno para um restaurante com três décadas de tradição, inevitavelmente gerou atritos com a experiência e o modelo de gestão de sua mãe. Os conflitos de gerações e de visões foram uma parte inerente desse processo de transição. Contudo, Josiane e Guilherme demonstraram uma notável capacidade de superação e adaptação. “Mesmo a gente 'se matando', a gente se ama ao mesmo tempo, porque a gente tem o mesmo propósito”, reflete Josiane. Ela reconhece que, em certos momentos, o filho demonstra mais maturidade e consciência histórica do negócio, enquanto em outros, é ela quem assume essa liderança. Essa flexibilidade mútua foi essencial para a evolução da relação profissional, que, em suas palavras, se molda “como uma casa de família normal”.

Guilherme, que hoje é o responsável pelo marketing do restaurante, compreendeu que seu papel não era o de descaracterizar a essência construída pela família ao longo dos anos, mas sim o de fortalecer a marca e modernizar processos, especialmente no âmbito digital e de comunicação. Essa mudança de perspectiva foi crucial para a melhoria da relação de trabalho. “Eu vejo ela como figura de mãe num momento e como sócia em outro. Mas sempre tendo o respeito de mãe”, afirma Guilherme. Ele complementa que, apesar das ideias distintas e das discussões fervorosas por objetivos comuns, no final do dia, o vínculo afetivo prevalece: “a gente se liga ou a gente se vê, se abraça, se beija e pede desculpa”, evidenciando a base sólida de amor e respeito que sustenta a parceria.

Flores e família: a dinâmica na floricultura de Scheila Hames

Outro exemplo inspirador de empreendedorismo materno em Santa Catarina é a floricultura de Scheila Hames. Curiosamente, seu negócio foi fundado antes mesmo do nascimento de seus filhos, Kaique, de 21 anos, e Henrique Hames, de 19 anos. Hoje, a loja não apenas floresce, mas também se tornou um ponto de união familiar, onde os jovens atuam ativamente, dividindo-se entre entregas, atendimento ao cliente e contatos com fornecedores. A flexibilidade que o negócio oferece é um dos principais atrativos, permitindo à família passar mais tempo junta.

Diferente de alguns cenários onde a convivência intensa pode gerar atritos, para os filhos de Scheila, a proximidade é um ponto positivo. “A gente passa muito tempo junto. Eu gosto passar tempo com a família, então basicamente a gente passa 24 horas por dia junto”, diz Henrique, demonstrando a satisfação com a dinâmica familiar e profissional. Embora opiniões divergentes surjam ocasionalmente, especialmente em decisões de venda ou estratégias, eles conseguem resolver os conflitos de forma tranquila, demonstrando maturidade e respeito mútuo. Scheila também reconhece a necessidade de se adaptar e alternar entre os papéis de mãe e chefe, mas salienta que a intimidade e a confiança com os filhos são um diferencial valioso que facilita a troca de conhecimentos e impulsiona o crescimento do negócio.

A maternidade empreendedora no Brasil: um panorama de dados e motivações

A realidade vivenciada por Josiane e Scheila reflete uma tendência nacional. Um estudo realizado pelo Observatório de Negócios em parceria com o Sebrae Delas revelou que, em 2022, impressionantes 50,5% das empreendedoras brasileiras eram mães. Esse dado não apenas sublinha a força e a determinação da mulher brasileira, mas também elucida os principais motores por trás dessa escolha. A busca por maior flexibilidade de tempo, a ânsia por autonomia profissional e, muitas vezes, a dificuldade de conciliar uma carreira tradicional com as demandas da maternidade são fatores cruciais que impulsionam essas mulheres a abrir seus próprios negócios. O empreendedorismo se apresenta como uma alternativa viável para moldar suas rotinas e estar mais presente na vida dos filhos, ao mesmo tempo em que constroem um futuro financeiro e profissional.

Essa crescente participação feminina no empreendedorismo, especialmente entre mães, tem implicações significativas para a economia e a sociedade. Ela não só contribui para a geração de renda e empregos, mas também promove a inovação e a diversidade no mercado. Contudo, traz à tona a urgência de políticas públicas e redes de apoio que considerem as peculiaridades dessa jornada, como acesso a crédito, capacitação específica e soluções de cuidado infantil. O desafio de gerir um negócio e uma família ao mesmo tempo, muitas vezes sem a devida infraestrutura de apoio, demonstra a extraordinária capacidade multitarefa e resiliência dessas mulheres.

Equilibrando papéis: estratégias para o sucesso no lar e no trabalho

As histórias de Josiane e Scheila oferecem valiosas lições sobre como navegar no complexo mar das relações familiares e profissionais. Primeiramente, a comunicação clara e honesta é a pedra angular. Definir as expectativas para cada papel – mãe, chefe, filho, funcionário – e discutir abertamente as responsabilidades e limites evita mal-entendidos e frustrações. Em segundo lugar, a capacidade de alternar entre os “chapéus” é vital. Reconhecer o momento de ser a mãe acolhedora e o momento de ser a líder exigente, e vice-versa, é uma habilidade que se aprimora com a prática e a autoconsciência. Isso inclui criar espaços e tempos específicos para cada tipo de interação, por exemplo, reuniões formais para assuntos de negócios e momentos informais para a relação familiar.

Além disso, é fundamental que o filho reconheça e respeite a autoridade da mãe no ambiente profissional, entendendo que o sucesso do negócio beneficia a todos. Da mesma forma, a mãe deve confiar na capacidade e nas novas perspectivas que os filhos trazem, incentivando a inovação e a autonomia. A valorização da contribuição de cada um, independentemente do parentesco, fortalece o senso de equipe e o propósito comum. O perdão e a capacidade de seguir em frente após os inevitáveis atritos são outros elementos cruciais para a longevidade tanto do negócio quanto da relação familiar, transformando os desafios em oportunidades de crescimento e união.

As experiências dessas mães empreendedoras em Santa Catarina são testemunhos da força, dedicação e inteligência emocional necessárias para trilhar um caminho profissional único. Elas demonstram que, com amor, respeito, comunicação e limites bem estabelecidos, é possível construir negócios prósperos e, ao mesmo tempo, fortalecer os laços familiares, provando que o coração da família pode, sim, ser o coração da empresa.

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Fonte: https://g1.globo.com

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