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Em uma ação emblemática que marca um ponto crucial na proteção da fauna silvestre brasileira, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) desativou o que era considerado o último criadouro de macacos-prego do Brasil, localizado em Xanxerê, no Oeste de Santa Catarina. A operação, concluída esta semana e divulgada na última sexta-feira (10), revelou um cenário chocante de maus-tratos e exploração animal, onde os primatas eram submetidos a condições degradantes, chocando as equipes de fiscalização e o público em geral. A desativação não é apenas o fim de um empreendimento, mas um alerta sobre a necessidade de vigilância constante contra a exploração de animais silvestres e a importância de um manejo ético e responsável.

As chocantes condições de cativeiro: um retrato da negligência

As descobertas no criadouro de Xanxerê pintaram um quadro sombrio da realidade vivida pelos macacos-prego e outros primatas. Os animais foram encontrados em estado de desnutrição severa, exibindo sinais claros de estresse crônico e privados de um dos elementos mais vitais para seu bem-estar: o acesso à luz solar direta. Além disso, uma prática cruel e rotineira era a separação precoce dos filhotes de suas mães, um ato que compromete drasticamente o desenvolvimento social e emocional dessas espécies altamente sociáveis. As gaiolas eram inadequadas e pequenas, não permitindo que os macacos realizassem movimentos básicos e naturais de sua espécie, como escalar e saltar, essenciais para sua saúde física e mental.

A falta de espaço e o confinamento prolongado em ambientes empobrecidos, sem estímulos naturais, levavam os animais a desenvolver comportamentos estereotipados – sinais inegáveis de sofrimento psicológico. A privação de luz solar, por sua vez, afeta a produção de vitamina D, essencial para a saúde óssea e o sistema imunológico, além de desregular os ciclos circadianos, impactando o bem-estar geral dos primatas. A separação prematura de mães e filhotes é particularmente devastadora, pois os macacos-prego dependem intensamente do aprendizado materno e da interação grupal para desenvolver habilidades sociais e de sobrevivência.

O modelo de negócio e a persistência na ilegalidade

O criadouro operava como um negócio de reprodução e venda de macacos-prego, saguis e outros animais silvestres brasileiros. O mais alarmante é que o estabelecimento funcionou por mais de uma década sob a proteção de uma liminar judicial, um arranjo legal que, por anos, permitiu a continuidade das operações apesar das possíveis irregularidades. Durante o período de 2013 a 2024, o criadouro declarou a venda de 240 primatas, sendo 86 macacos-prego e 154 saguis, números que evidenciam a escala da exploração animal em detrimento do bem-estar dos indivíduos.

A cassação dessa liminar, em 2024, abriu caminho para a atuação decisiva do Ibama, que iniciou o processo de desativação após constatar as graves violações. A trajetória do criadouro é um exemplo preocupante de como brechas legais ou a lentidão judicial podem perpetuar situações de maus-tratos por longos períodos, dificultando o trabalho dos órgãos fiscalizadores e prolongando o sofrimento animal. Em anos anteriores, o Ibama já havia resgatado 167 animais do local, incluindo 126 aves e 41 primatas, que foram encaminhados para Centros de Triagem de Animais Silvestres (Cetas) em Brasília, Lorena (SP) e Porto Alegre, demonstrando um histórico de problemas.

'Manejo era feito na base do terror': o relato de uma fiscal

Uma das fiscais do Ibama, cuja identidade foi preservada, forneceu um relato contundente sobre as práticas no criadouro, destacando a desumanização com que os animais eram tratados. Segundo ela, “o criadouro funcionava apenas para a reprodução dessas espécies, visando o lucro com a exploração desses animais, tratando-os como meras mercadorias”. Esta declaração revela a essência do problema: a redução de seres vivos complexos e sencientes a simples produtos comerciais, desprovidos de qualquer consideração por suas necessidades biológicas e emocionais.

A descrição do manejo é particularmente perturbadora: “O manejo desses animais era feito na base do terror, com jatos d’água de alta pressão. Todos tinham sintomas de aversão a pessoas, demonstrando um medo exacerbado”. Essa tática de intimidação causava um estresse tão elevado que os macacos-prego não conseguiam mais desenvolver comportamentos típicos da espécie, como a estruturação hierárquica de grupos, fundamental para a vida social e a organização dentro de um bando. O medo constante e a ausência de um ambiente seguro resultaram em animais psicologicamente danificados, incapazes de se comportar como esperado para sua espécie.

A difícil retirada dos últimos primatas

A resistência do proprietário em colaborar com as autoridades foi um obstáculo significativo. Para a retirada dos 26 macacos-prego restantes – a etapa final da desativação – foi necessária a expedição de um mandado judicial que autorizasse o ingresso na propriedade. Essa medida legal foi crucial para superar as barreiras impostas pelo dono do estabelecimento, que “promovia obstáculos às equipes de fiscalização”, conforme o Ibama. A necessidade de uma intervenção judicial para garantir a proteção animal ressalta a complexidade e os desafios enfrentados pelos agentes ambientais em operações desse tipo.

Reabilitação: uma nova chance para os primatas resgatados

Com o resgate, os macacos-prego foram imediatamente encaminhados para uma instituição especializada em reabilitação de animais silvestres. Este novo lar oferece um contraste marcante com o ambiente de terror e privação de onde vieram. Nesses centros, os animais encontram espaços amplos, dotados de terra, vegetação nativa e estruturas para escalada, que simulam o habitat natural e permitem que manifestem seus comportamentos intrínsecos.

Além do espaço físico adequado, os primatas recebem nutrição balanceada e são incentivados a praticar exercícios que visam o restabelecimento de suas condições de saúde física e mental. O objetivo primordial é que eles possam, progressivamente, recuperar os comportamentos esperados para a espécie. A fiscal do Ibama expressou a esperança de que, “daqui pra frente, no novo lar, eles terão a oportunidade de compor bandos e viver socialmente, o que é fundamental para qualquer primata”. A reintegração social é um passo crítico para a recuperação de primatas traumatizados, permitindo-lhes reconstruir as hierarquias e interações que definem sua existência.

A inadequação de primatas como animais de estimação

A tragédia do criadouro de Xanxerê serve como um lembrete contundente de por que a criação de macacos-prego, ou qualquer primata, como animais de estimação é veementemente desencorajada pelos órgãos ambientais. Esses animais são seres silvestres e complexos, cujas necessidades físicas, sociais e psicológicas são vastamente diferentes das de um ambiente doméstico. A tentativa de domesticá-los compromete irremediavelmente seus comportamentos naturais, levando frequentemente a situações de manejo abusivo, maus-tratos e, em muitos casos, a riscos sanitários relevantes, tanto para os animais quanto para os humanos (zoonoses).

Primatas precisam de um ambiente que imite sua complexidade ecológica, permitindo a expressão de comportamentos como forrageio, escalada, vocalização específica e, crucialmente, interação com outros de sua espécie em uma estrutura social. Confiná-los em casas ou gaiolas pequenas é uma forma de crueldade que não apenas os priva de sua identidade natural, mas também os condena a uma vida de frustração e sofrimento. A conscientização sobre a importância de manter animais silvestres em seus habitats naturais ou em centros de reabilitação especializados é fundamental para evitar que histórias como a de Xanxerê se repitam.

Colaboração multissetorial pela proteção animal

A complexidade da operação de desativação e resgate exigiu um esforço coordenado de diversas instituições. O Ibama contou com o apoio logístico fundamental da Polícia Rodoviária Federal (PRF) para o transporte seguro dos animais para as instituições de reabilitação. Além disso, a ação teve a colaboração do Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA-SC), da Polícia Militar Ambiental e de outras instituições parceiras. Essa união de forças é essencial para o sucesso de ações de fiscalização e proteção ambiental, demonstrando que a defesa da fauna é uma responsabilidade compartilhada que exige cooperação entre diferentes esferas governamentais e civis.

A desativação do último criadouro de macacos-prego do Brasil é um marco importante na luta contra a exploração de animais silvestres. Não apenas garante uma nova chance de vida digna para os macacos resgatados, mas também reforça a mensagem de que a fiscalização e a punição de crimes ambientais são prioridades. Que este episódio sirva de lição e inspire a sociedade a uma maior conscientização e engajamento na defesa do meio ambiente e de todos os seus habitantes.

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Fonte: https://g1.globo.com

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