O cenário da saúde mental infantil e adolescente no Brasil tem se tornado cada vez mais preocupante, com um aumento alarmante no número de jovens enfrentando transtornos emocionais. Em cada cinco crianças e adolescentes no país, um convive com alguma forma de sofrimento psíquico, uma realidade que se reflete de maneira alarmante em Santa Catarina. Os dados mais recentes da Secretaria de Saúde do estado indicam que, apenas nos últimos meses, cerca de 900 crianças e adolescentes necessitaram de internação por questões de saúde mental, um número que, embora impactante, pode ser apenas a ponta do iceberg de um problema de proporções ainda maiores e mal dimensionadas.
A gravidade da situação em solo catarinense é exacerbada pela **falta de dados consolidados e a deficiência crônica no atendimento especializado**, especialmente na crucial área da psiquiatria pediátrica. O Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) tem sido uma voz ativa nesse debate, apontando a inexistência de um levantamento completo da demanda por esses serviços. Essa lacuna impede a formulação de políticas públicas eficazes e o direcionamento adequado de recursos, deixando milhares de famílias sem o suporte necessário e perpetuando um ciclo de sofrimento que se aprofunda com o tempo.
MPSC atua e cobra respostas diante da crise de atendimento
Diante de um quadro tão crítico e da evidência de uma rede de saúde mental que não consegue suprir a demanda crescente, o MPSC ajuizou uma **Ação Civil Pública**. O objetivo central é forçar o reconhecimento oficial da deficiência na Atenção Especializada em saúde mental no estado e cobrar medidas urgentes. A ação foca, em particular, na inaceitável demora para o acesso a consultas de psiquiatria pediátrica, um problema especialmente agudo na macrorregião da Grande Florianópolis. A ausência de estatísticas claras sobre o número de crianças e adolescentes na fila de espera por atendimento especializado é um dos pontos mais críticos levantados pelo órgão, evidenciando uma estrutura que está longe de responder às necessidades da população infantojuvenil.
Essa intervenção legal sublinha a urgência de fortalecer a rede de saúde mental em SC, não apenas com mais profissionais e leitos, mas também com a criação de um sistema robusto de coleta e análise de dados. Sem informações precisas, a gestão da crise torna-se um desafio ainda maior, com o risco de que as soluções implementadas sejam paliativas e insuficientes frente à complexidade do problema.
Uma geração que adoece mais cedo: fatores e manifestações
A realidade de Santa Catarina é um reflexo fiel de uma tendência preocupante em âmbito nacional: pela primeira vez na história, o número de atendimentos em saúde mental para crianças e adolescentes superou o de adultos no Brasil. Este dado chocante sugere que o sofrimento emocional está se manifestando cada vez mais cedo, um fenômeno multifacetado que tem suas raízes em diversos fatores contemporâneos.
O ambiente familiar como catalisador do sofrimento
Especialistas alertam que o sofrimento emocional infantil frequentemente se manifesta através de comportamentos que, muitas vezes, não são compreendidos por pais ou cuidadores. O que muitos ignoram é que, na maioria dos casos, a raiz desses problemas encontra-se no próprio ambiente doméstico e familiar. Segundo a neurocientista Telma Abraão, especialista em trauma e saúde mental, “o comportamento é um pedido de ajuda”. Manifestações como ansiedade, irritação constante, dificuldade de atenção ou isolamento não devem ser encaradas meramente como traços de personalidade, mas como sinais de que a criança está tentando expressar algo que ainda não consegue nomear ou processar verbalmente.
Abraão explica que a criança é extremamente sensível ao seu entorno: “Ela capta o ambiente ao redor o tempo todo. Ela sente antes mesmo de entender. Se o ambiente é tenso, sem validação, sem olho no olho e afeto, ela vai traduzir isso como ameaça e ter comportamentos reativos. Na verdade, a criança copia e cola o estado emocional dos adultos com quem tem maior ligação”. Este mimetismo emocional destaca a responsabilidade dos adultos na criação de um ambiente seguro e acolhedor, fundamental para o desenvolvimento psíquico saudável dos pequenos.
O impacto do estresse tóxico no desenvolvimento cerebral
A infância representa o período mais crítico e vulnerável para o desenvolvimento do cérebro. Quando uma criança é exposta a um ambiente de tensão constante, seu organismo entra em um estado de alerta permanente, liberando hormônios do estresse que podem ser prejudiciais. O psicólogo, neuroterapeuta e psicanalista Gastão Ribeiro, especialista em traumas, descreve esse fenômeno como “estresse tóxico”, frequentemente gerado em famílias disfuncionais. Esse estresse não apenas afeta o bem-estar emocional, mas provoca “mudanças reais na arquitetura cerebral”.
Essa ativação prolongada de áreas cerebrais ligadas ao medo, como a amígdala, e a liberação excessiva de cortisol, podem comprometer diretamente funções cognitivas vitais. Memória, atenção e capacidade de aprendizagem são impactadas, criando um terreno fértil para dificuldades acadêmicas e sociais que se estenderão por toda a vida.
Consequências que se estendem para a vida adulta
Os efeitos devastadores de um ambiente tenso na infância, segundo as mais recentes descobertas científicas, não se dissipam com o tempo. Eles se enraízam profundamente e acompanham o indivíduo ao longo de toda a sua existência. A pediatra e especialista em Neurociência do Trauma Infantil, Priscila Xavier, observa: “Não à toa vemos tantos adultos com dificuldade de concentração, alterações no sono, insegurança e irritabilidade, problemas de aprendizagem e de relacionamento. A infância é um chão que pisamos a vida inteira, como dizia a escritora Lia Luft”. Essa percepção reforça a urgência de intervir precocemente para mitigar os impactos de traumas e estresses infantis.
O dilema da medicalização e a importância da investigação do contexto
Com o aumento exponencial dos casos de sofrimento emocional na infância, observa-se também uma ascensão no uso de medicamentos para gerenciar sintomas como ansiedade, agitação e dificuldades de atenção. Embora a medicação possa ser uma ferramenta essencial e benéfica em muitos quadros clínicos, especialistas alertam para o risco da **medicalização excessiva e da simplificação de diagnósticos**. A preocupação reside na tendência de transformar rapidamente comportamentos observáveis em diagnósticos fechados, e estes, por sua vez, em prescrições farmacológicas sem uma análise aprofundada.
Gastão Ribeiro reitera que “muitas crianças que recebem diagnóstico de TDAH, na verdade, estão reagindo a experiências de estresse ou trauma que ainda não foram reconhecidas”. Ele enfatiza que, embora o medicamento possa aliviar os sintomas, ele não substitui a crucial investigação da história de vida da criança e do contexto em que ela está inserida. A abordagem ideal deve ser holística, envolvendo terapia familiar, acompanhamento psicológico e, quando necessário, intervenções pedagógicas e sociais, buscando a raiz do problema em vez de apenas mascarar seus sintomas.
O estudo ACEs: a conexão entre experiências adversas na infância e problemas de saúde na vida adulta
Um dos maiores e mais influentes estudos na área de saúde mental e saúde pública global, conhecido como pesquisa das Experiências Adversas na Infância (ACEs – Adverse Childhood Experiences), trouxe à luz descobertas revolucionárias sobre a duradoura influência da infância na saúde adulta. O estudo acompanhou mais de 17 mil indivíduos nos Estados Unidos por vários anos, investigando como situações traumáticas e estressantes vivenciadas na infância moldam a saúde ao longo da vida.
Os pesquisadores do ACEs analisaram uma série de experiências adversas, incluindo violência doméstica, negligência física e emocional, abuso sexual, separação dos pais, doença mental de um membro da família, ou uso de substâncias. Os resultados demonstraram uma forte correlação dose-resposta: quanto maior o número de experiências adversas na infância, maior a probabilidade de desenvolver sérios problemas de saúde física e mental na vida adulta, como doenças cardíacas, câncer, diabetes, depressão, ansiedade e abuso de substâncias. Este estudo seminal reforça a tese de que a infância não é apenas uma fase de desenvolvimento, mas o alicerce para a saúde e bem-estar de toda uma vida, destacando a necessidade imperativa de investir em prevenção e intervenção precoce para proteger as crianças do sofrimento emocional.
O aumento do sofrimento emocional entre crianças e adolescentes em Santa Catarina é um alerta que não pode ser ignorado. A deficiência no atendimento especializado e a falta de dados precisos apenas agravam um cenário já delicado. É fundamental que a sociedade, as famílias e os órgãos públicos ajam de forma coordenada e eficaz para proteger a saúde mental de nossa próxima geração. Acompanhe o São José Mil Grau para mais reportagens aprofundadas sobre este e outros temas que impactam diretamente a nossa comunidade. Não perca as atualizações, análises e soluções que buscamos trazer para você!
Fonte: https://g1.globo.com