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Uma descoberta arqueológica de proporções significativas transformou uma simples obra de alargamento de estrada em Lauro Müller, no Sul de Santa Catarina, em um portal para o passado remoto do continente sul-americano. O que inicialmente parecia ser um túnel misterioso, talvez ligado a antigas lendas de tesouros, revelou-se uma estrutura milenar, escavada por gigantes da megafauna pré-histórica há mais de 10 mil anos. A inusitada aparição veio à tona quando a moradora Simone Cattaneo Betti notou a formação subterrânea, despertando a curiosidade e reacendendo narrativas ancestrais da região.

Influenciada por uma antiga lenda local, Simone inicialmente acreditou estar diante de um caminho que poderia levar a riquezas enterradas por antigos habitantes. A proximidade de sua residência com um antigo cemitério e a narrativa de uma família que teria ocultado seus bens durante uma peste, incapaz de levá-los consigo, reforçavam essa crença popular. “Quando a gente viu, pensou: agora é só seguir o caminho que o tesouro está ali”, relatou Simone, expressando a esperança inicial que mobilizou a comunidade e, subsequentemente, atraiu a atenção de especialistas.

A revelação científica: paleotocas e a megafauna do Pleistoceno

O mistério, contudo, logo ganhou uma explicação ancorada na ciência, desmistificando a busca por tesouros e revelando um tesouro ainda mais valioso: o conhecimento sobre a pré-história. Com a chegada de pesquisadores, a estrutura foi identificada como uma paleotoca, termo utilizado para designar túneis e abrigos subterrâneos escavados por animais gigantes que habitaram o planeta durante o Período Pleistoceno, popularmente conhecido como a Era do Gelo. Essa época, que se estendeu de aproximadamente 2,6 milhões a 11,7 mil anos atrás, foi marcada pela presença da megafauna, animais de grande porte que hoje estão extintos.

O geólogo Gustavo Simão, um dos especialistas envolvidos na análise, explicou que essas imponentes estruturas serviam como refúgios vitais para a megafauna da época. Em um cenário de grandes mudanças climáticas e a constante ameaça de predadores, as paleotocas ofereciam proteção contra intempéries, abrigo para a criação de filhotes e até mesmo esconderijos. A impressionante capacidade de preservação dessas formações geológicas, mantendo sua integridade mesmo após a extinção de seus construtores, é um testemunho da robustez do solo e das condições subterrâneas que permitiram que chegassem até os dias atuais.

Os engenheiros milenares: tatus e preguiças gigantes

Os estudos paleogeológicos e paleontológicos indicam que os principais arquitetos dessas complexas redes subterrâneas eram espécies gigantes de tatus e preguiças. O doutorando em geografia Arthur Filipe Bechtel detalha as dimensões impressionantes desses escavadores: alguns tatus gigantes podiam atingir até 500 quilos, um peso comparável ao de um touro adulto, enquanto as preguiças gigantes, como o Megatherium, chegavam a impressionantes seis toneladas, equivalendo ao porte de um elefante. Esses animais possuíam garras poderosas e uma estrutura corporal adaptada para a escavação de galerias extensas.

A forma como esses animais escavavam suas tocas é um ponto chave para a identificação. Eles deixavam marcas características nas paredes dos túneis, arranhões profundos feitos por suas garras, que são fósseis-traço cruciais. Mesmo na ausência de restos ósseos ou outros fósseis diretos dos animais, essas marcas funcionam como evidência irrefutável da presença da megafauna e de suas atividades. Elas fornecem informações valiosas sobre o comportamento dos animais, a direção de suas escavações e até mesmo o tipo de movimento que faziam dentro dos túneis, revelando um panorama detalhado de um ecossistema extinto.

Metodologia de identificação e o valor científico das paleotocas

A confirmação da natureza pré-histórica do túnel em Lauro Müller não foi arbitrária, mas resultado de uma análise criteriosa baseada em múltiplos fatores. O geólogo Gustavo Simão destacou três elementos primordiais para essa identificação: o tipo de relevo da região, que oferece condições geológicas estáveis para a formação e preservação dessas estruturas; o solo arenítico, que, embora desafiador para a escavação, permite a criação de galerias com certa estabilidade; e, crucially, o formato característico do túnel, geralmente circular ou oval, com diâmetros relativamente uniformes e extensos, que distingue claramente uma paleotoca de outras formações geológicas ou cavidades naturais.

A importância dessas descobertas transcende a mera curiosidade. Como enfatiza Simão, o surgimento de novas paleotocas como a de Lauro Müller é fundamental para aprimorar a compreensão científica. “Cada evidência e nova paleontoca vai servindo para a gente reconstruir o modo de vida e os locais que esses animais já extintos habitaram”, explicou. Elas revelam que esses animais habitavam e escavavam em materiais geológicos diversos e que sua distribuição geográfica era mais ampla do que se imaginava, expandindo o mapa de ocorrência da megafauna e preenchendo lacunas no conhecimento sobre o comportamento, a ecologia e a paleoambiente do Pleistoceno no Brasil.

Geoparque Caminhos dos Cânions do Sul: um santuário da pré-história

A região onde o túnel foi encontrado, Lauro Müller, está inserida em um contexto de grande relevância geológica e arqueológica: o Geoparque Caminhos dos Cânions do Sul. Este geoparque, reconhecido internacionalmente pela UNESCO, abrange diversos municípios e é um verdadeiro santuário de registros naturais e culturais. Atualmente, cerca de 30 paleotocas já foram registradas na área do geoparque, com concentrações notáveis em Morro Grande, Jacinto Machado e Timbé do Sul, municípios que se destacam por sua riqueza geológica e paleontológica.

O diretor executivo do geoparque, Gislael Floriano, ressalta que a descoberta em Lauro Müller reforça a importância histórica e científica da região como um repositório único de vestígios pré-históricos. Além disso, Floriano destaca um aspecto fascinante: em alguns casos, essas estruturas escavadas por animais gigantes foram reutilizadas por povos indígenas como abrigos temporários ou permanentes. “Estruturas importantes que num determinado período da história, algumas delas, em especial lá no nosso território, também tiveram ocupação humana”, disse, conectando de forma intrigante a pré-história animal com a antiga presença humana, o que dá um novo contorno à esperança inicial de Simone Cattaneo Betti.

Proteção legal e o futuro da pesquisa em Lauro Müller

Diante da relevância científica e cultural da descoberta, a área onde o túnel foi encontrado foi imediatamente isolada e colocada sob proteção de lei federal. Essa medida legal é crucial para garantir a preservação da paleotoca e evitar qualquer intervenção indevida que possa comprometer sua integridade ou o potencial de pesquisa. A proteção assegura que o local servirá como um laboratório natural para futuros estudos, permitindo que geólogos, paleontólogos e arqueólogos aprofundem o conhecimento sobre a estrutura, seus construtores e o ambiente em que viveram.

Os próximos passos incluem análises mais detalhadas, que podem envolver datação por carbono, estudo de sedimentos, mapeamento tridimensional da galeria e busca por novos vestígios. A persistência da moradora Simone Cattaneo Betti, que, com um sorriso, mantém a possibilidade de que o local tenha sido reutilizado por seres humanos ao longo do tempo – “Pode ter sido feito pelos tatus gigantes, sim… mas depois outras pessoas podem ter usado. Vai saber, né? A esperança continua” – ilustra a intersecção entre o imaginário popular e as evidências científicas, abrindo caminho para que a pesquisa futura possa explorar, quem sabe, essa própria possibilidade de ocupação secundária, ainda que de forma mais recente. A descoberta em Lauro Müller é, portanto, um convite contínuo à exploração e ao entendimento do passado mais distante de Santa Catarina e do Brasil.

A revelação desses túneis milenares em Santa Catarina é um lembrete vívido da rica e complexa história geológica e biológica do nosso planeta. Para continuar a acompanhar descobertas fascinantes como esta, que conectam a natureza, a ciência e as raízes do nosso território, permaneça conectado ao São José Mil Grau. Navegue por nossos artigos, mergulhe em reportagens aprofundadas e descubra um universo de informações que transformam a maneira como vemos o mundo ao nosso redor.

Fonte: https://g1.globo.com

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