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Em um cenário que transcende a simples volta à rotina escolar, cerca de 130 mães de Palhoça, na Grande Florianópolis, transformaram a tarde de uma sexta-feira em um verdadeiro festival de celebração e alívio. Longe dos cadernos e das obrigações domésticas, essas mulheres se reuniram em um bar lotado, no prestigiado bairro Pedra Branca, para marcar o início do ano letivo de uma forma inusitada e cheia de energia: com uma vibrante roda de samba, uma farta feijoada e drinks que brindavam a tão esperada liberdade. O evento, que já se consolidou como uma tradição local, começou pontualmente ao meio-dia e só se encerrou às 17h, quando o estabelecimento abriu suas portas para o público geral, deixando para trás um rastro de alegria e companheirismo.

A atmosfera carnavalesca, pontuada por cantoria animada, plaquinhas temáticas e coreografias espontâneas, revelou mais do que uma simples festa. Foi um manifesto coletivo da exaustão e, ao mesmo tempo, da dedicação ininterrupta que a maternidade exige, especialmente durante as férias escolares. O encontro, idealizado para ser um oásis de diversão e leveza, reforça laços comunitários e oferece um espaço vital para que as mães possam se reconectar consigo mesmas e umas com as outras, longe das demandas incessantes da criação dos filhos e da gestão do lar.

A gênese de uma celebração necessária: mais que uma festa, um respiro coletivo

A iniciativa nasceu há dois anos, de forma despretensiosa, mas com uma necessidade latente. Priscila Marola Steinbach, a idealizadora do evento, percebeu que a vivência do pós-férias, embora recheada de momentos preciosos com os filhos, era invariavelmente exaustiva para a maioria das mães. A dedicação integral às crianças, a busca incessante por atividades e o rompimento da rotina geravam um cansaço que pedia um alívio. “É um período nosso, para estar entre adultas, falando de coisas de adultas — não só de criança, piquenique e parquinho, sabe?”, desabafou Priscila, evidenciando o desejo de escapar, por algumas horas, dos temas cotidianos da maternidade.

Essa “grande brincadeira”, como ela descreve, ganhou vida a partir de comentários e desabafos que ecoavam entre as mães: “Hoje é dia '900 e pouco' de janeiro”, “Não tenho mais brincadeira para inventar”, “O que fazer em dia de chuva?” ou “Não tenho mais para onde ir”. Essas frases, aparentemente corriqueiras, sintetizam a sobrecarga mental e física que muitas mulheres experimentam. Para Priscila, que veio de São Paulo e encontrou na comunidade da Pedra Branca um novo lar, o evento é também uma forma poderosa de fortalecer o senso de comunidade e pertencimento, especialmente para mães que, como ela, buscam construir uma rede de apoio em um novo ambiente.

O impacto na rotina materna: um olhar sobre a dupla jornada e o bem-estar

A comemoração é um lembrete contundente das múltiplas funções desempenhadas pelas mulheres na sociedade contemporânea. A arquiteta Michele Poloni, mãe de dois meninos, de 12 e 4 anos, ressaltou a importância desses momentos. “Quase toda mãe acaba tentando dar o máximo e nem sempre consegue conciliar trabalho com os filhos, a casa. Então esse momento é importante porque é um respiro, é um momento só nosso, só da mãe”, afirmou, enquanto brindava com sua amiga Elaine Chaves. Essa fala reflete uma realidade amplamente documentada: a dupla e até tripla jornada de trabalho que recai sobre as mulheres.

Essa realidade é corroborada por dados que reiteram estudos como o do IBGE, que frequentemente expõem a disparidade na distribuição de tarefas domésticas e de cuidado. Pesquisas recentes indicam que mulheres que trabalham fora de casa dedicam significativamente mais tempo do que os homens aos afazeres domésticos e ao cuidado dos filhos, chegando a quase 80% a mais. Esse desequilíbrio não apenas afeta a saúde mental e física das mães, mas também limita seu tempo para lazer, desenvolvimento pessoal e profissional. Eventos como este em Palhoça, portanto, não são apenas festas; são válvulas de escape essenciais para a saúde e o bem-estar materno, permitindo que essas mulheres recarreguem as energias e fortaleçam os laços que as sustentam.

A liberdade e o foco profissional: mães que inspiram e se reinventam

Para a designer Eliane, mãe de um menino de 9 anos, o retorno às aulas é sinônimo de um “sentimento de liberdade” que se traduz em mais fluidez para a rotina profissional e pessoal. Presença assídua desde a primeira edição da festa, ela celebra a possibilidade de dedicar-se ao trabalho com mais calma e, também, ter um tempo para si. “A gente espera muito por ele, porque é um dia descontraído, que a gente vê as amigas, se reúne e tem tempo para prestigiar”, comentou, destacando a raridade desses encontros.

Além do aspecto profissional, Eliane sublinha a importância da escola para o desenvolvimento integral do filho. “Eu sei que ele precisa desse período, não só pelo conhecimento, mas também para extravasar a energia que a criança de 9 anos tem”, completou. Essa percepção evidencia que o bem-estar parental e o desenvolvimento infantil estão interligados; quando as mães têm um espaço para respirar e se organizar, elas estão mais capacitadas a oferecer um ambiente saudável e estimulante para seus filhos, reforçando o ciclo positivo de cuidado e crescimento.

Uma tradição em crescimento: a comunidade que se fortalece e se acolhe

A festa da volta às aulas transcendeu a ideia inicial de um encontro isolado, tornando-se uma verdadeira tradição no bairro Pedra Branca. A cada edição, o evento busca inovar, como a última, que ocorreu em 13 de fevereiro de 2025 (exatamente um ano antes da data da notícia), e contou com flash tattoo, DJ e o divertido jogo Stop em grupo. A expectativa é que as próximas edições sejam ainda maiores, com mais vagas, alcançando um número crescente de mães que buscam esse espaço de confraternização e apoio mútuo.

Priscila Marola Steinbach, que também é a criadora do projeto Sou Pedra Branca, uma iniciativa voltada a conectar os moradores do bairro, reforça o papel social do evento. “É muito importante para as mulheres do bairro, pra gente se conectar, se conhecer e acolher também. Tem muito a ver com pertencimento. Tem gente que recém chegou no bairro e não conhece ninguém e vem para conhecer outras pessoas”, explica. O evento se torna um ponto de encontro para diversas realidades, desde mães empresárias que veem na festa uma oportunidade de networking informal, até as donas de casa que encontram ali um ambiente de acolhimento e compreensão, fortalecendo a rede de apoio tão necessária em comunidades onde muitos moradores são recém-chegados de outras cidades.

O contexto da volta às aulas em Santa Catarina: calendários e expectativas

O timing dessa celebração é particularmente relevante, considerando as diferentes realidades do calendário escolar em Santa Catarina. Enquanto a rede estadual de ensino só tem previsão de iniciar o ano letivo de 2026 em 19 de fevereiro, muitas escolas particulares da região da Grande Florianópolis, frequentadas pela maioria dos filhos dessas mães, já retomaram suas atividades na segunda-feira anterior, 9 de fevereiro. Essa diferença no cronograma é um fator crucial, pois permite que um grupo significativo de mães desfrute de seu “respiro” mais cedo, aliviando a pressão das férias prolongadas.

A antecipação do retorno às aulas em algumas instituições privadas, como no caso dos filhos das mães de Palhoça, sublinha a dinâmica complexa da organização familiar em torno do calendário escolar. Para muitas, cada dia que os filhos permanecem em casa durante as férias representa um desafio adicional de logística, entretenimento e conciliação de agendas. A festa, nesse contexto, surge como uma catarse coletiva, um reconhecimento público da transição para um período de maior previsibilidade e, para muitas, de maior autonomia no dia a dia.

A celebração da volta às aulas em Palhoça é muito mais que uma festa; é um espelho das realidades maternas contemporâneas, um palco para o alívio, a camaradagem e o fortalecimento de uma comunidade unida pela experiência da maternidade. Este evento único em Santa Catarina não apenas oferece um merecido momento de lazer, mas também ressalta a importância de espaços onde as mulheres podem compartilhar suas vivências, apoiar-se mutuamente e, acima de tudo, celebrar suas conquistas diárias. Para continuar acompanhando histórias inspiradoras, notícias aprofundadas e o pulsar da nossa região, não deixe de navegar pelo São José Mil Grau. Fique por dentro de tudo que move a nossa comunidade!

Fonte: https://g1.globo.com

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