A imagem da onça-pintada, o majestoso maior felino das Américas, é frequentemente associada a biomas como o Pantanal e a Amazônia, regiões onde sua presença ainda é robusta e emblemática. Contudo, em um passado não tão distante, a Mata Atlântica de Santa Catarina também era lar desses predadores magníficos. Um estudo recente, detalhado e meticuloso, lançou uma nova luz sobre a distribuição histórica e o subsequente desaparecimento das onças-pintadas no território catarinense, fornecendo um quadro crucial para a compreensão de sua extinção local e os desafios da conservação.
Dois pesquisadores dedicados mergulharam em arquivos e coleções, compilando e analisando 16 registros fotográficos históricos da espécie. Este trabalho permitiu traçar, pela primeira vez de forma sistematizada, a extensão da presença do animal no estado, com a maioria dos registros concentrada nas regiões Oeste, Norte e Vale do Itajaí. As conclusões desse estudo não apenas preenchem lacunas históricas, mas também servem como um alerta urgente para a fragilidade da biodiversidade local e a necessidade de políticas de conservação mais eficazes.
A Metodologia do Estudo e a Busca por Vestígios
A pesquisa, publicada no prestigiado periódico internacional de biologia <i>Journal of Threatened Taxa</i>, focou na análise de fotografias que serviam como evidência concreta da presença da <i>Panthera onca</i> em Santa Catarina. O estudante de medicina veterinária Pedro Henrique Amancio Padilha, da Universidade da Sociedade Educacional de Santa Catarina (UniSociesc), unidade Joinville, e o professor e biólogo Jackson Fábio Preuss, pesquisador da Universidade do Oeste de Santa Catarina (Unoesc), foram os responsáveis por esta empreitada científica.
A motivação para o estudo surgiu da percepção da escassez de informações organizadas sobre a onça-pintada em Santa Catarina. Segundo Padilha, a ausência de um material bibliográfico e documental consistente sobre a espécie no estado, em contraste com outras regiões do Brasil, gerou uma inquietação que impulsionou a investigação. A equipe adotou um critério rigoroso para a seleção dos registros: todas as evidências deviam ser acompanhadas por fotografias, seja de abate ou de captura em vida, garantindo a autenticidade e a localização precisa. Relatos orais, espécimes de museu sem comprovação fotográfica e imagens com dúvidas sobre a localidade exata, ou que pudessem ser confundidas com estados vizinhos, foram descartados para assegurar a integridade dos dados.
Onde as Onças-Pintadas Habitavam em Santa Catarina?
As 16 fotografias analisadas, oriundas de jornais, museus e coleções particulares, revelam uma distribuição geográfica significativa da onça-pintada em Santa Catarina ao longo de quase um século. Os registros datam de 1866 a 1984 e apontam para uma presença concentrada principalmente nas regiões Oeste, Norte e Vale do Itajaí. Locais como Joinville, Corupá, Blumenau, Itapiranga, Fraiburgo, Taió, Sul Brasil, Guaraciaba, Paraíso, Anchieta, Cunha Porã e Campo Erê figuram nesta lista, demonstrando que o felino estava presente em diversas formações da Mata Atlântica catarinense.
É notável, por exemplo, o registro de 1866 em Joinville, uma das cidades mais antigas e industrializadas do estado, indicando que a espécie coexistia com os primeiros estágios da ocupação humana e da urbanização. Posteriormente, em 1972, um registro em Urubici, na Serra, sugere uma dispersão até mesmo em áreas de altitude, embora em menor frequência nos dados coletados. Esses vestígios históricos são fundamentais para entender a amplitude territorial da espécie antes dos impactos ambientais mais severos.
Desafios para o Mapeamento Preciso
Apesar da relevância dos dados, os pesquisadores enfrentaram obstáculos consideráveis para elaborar um mapa preciso das áreas de ocorrência da onça-pintada. A falta de documentação histórica consistente foi um dos principais entraves, pois as informações estavam dispersas em documentos não organizados, relatos orais e registros esparsos em jornais. Além disso, a própria natureza da onça-pintada, um animal solitário que ocupa vastos territórios, dificulta o monitoramento e a obtenção de dados mesmo em épocas mais recentes. As lacunas e inconsistências nos registros históricos contribuem para a dificuldade de estimar a área de ocupação da espécie de forma exata.
O Declínio das Onças-Pintadas em Santa Catarina: Fatores Chave
O estudo não apenas mapeou a presença histórica, mas também elucidou os fatores que levaram ao dramático declínio da população de onças-pintadas em Santa Catarina. Uma triste realidade se desenha a partir dos dados, que apontam para uma combinação de pressões antrópicas.
Caça Predatória, de Retaliação e Esportiva
A caça emerge como um dos fatores mais contundentes para o desaparecimento das onças. A análise das fotografias revelou que, dos 16 registros, 13 correspondiam a animais abatidos, e apenas três a indivíduos capturados vivos. Este dado é alarmante e sugere que a caça, seja por retaliação a ataques a rebanhos, por esporte ou pela busca de troféus, foi um elemento central na erradicação da espécie. A mentalidade da época frequentemente via a onça como uma ameaça ou um símbolo de bravura a ser conquistado, ignorando seu papel ecológico vital.
Perda e Fragmentação de Habitat
A expansão humana em Santa Catarina, impulsionada pela agricultura, urbanização e desenvolvimento de infraestrutura, resultou na perda massiva e na fragmentação do habitat natural da Mata Atlântica. As florestas, que antes ofereciam vastos corredores ecológicos para a onça-pintada, foram convertidas em lavouras, pastagens e cidades. A fragmentação isola as populações, reduzindo a variabilidade genética e tornando-as mais vulneráveis a doenças e outros fatores de extinção local.
Perseguição por Medo e Declínio de Presas
Embora ataques de onças a humanos sejam raros, o medo do animal era um fator que impulsionava a perseguição e o abate. Fazendeiros, especialmente, protegiam seus rebanhos, muitas vezes agindo em retaliação a predadores que atacavam gado ou outros animais criados. Paralelamente, o declínio das populações de presas naturais da onça – como capivaras, veados, tatus e outros mamíferos de médio e grande porte – causado pela caça excessiva e pela degradação ambiental, impactou diretamente a capacidade de sobrevivência das onças-pintadas, levando-as a buscar alimento em áreas de convívio humano e, consequentemente, aumentando o conflito.
O Legado e a Necessidade de Conservação
A dura realidade é que, atualmente, o Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA) estima que restem menos de 50 indivíduos adultos da espécie em vida livre no estado, sendo o último registro há mais de 40 anos. Isso significa que a onça-pintada está criticamente ameaçada de extinção em Santa Catarina, com a possibilidade de já ter sido funcionalmente extinta em boa parte de seu antigo território. Este cenário destaca a urgência de esforços de conservação.
A onça-pintada (<i>Panthera onca</i>) é uma espécie-chave, ou seja, sua presença é fundamental para a saúde e o equilíbrio do ecossistema. Como predador de topo, ela controla as populações de herbívoros, evitando a superpopulação e a degradação da vegetação. Seu desaparecimento em Santa Catarina, portanto, tem um efeito cascata que afeta toda a cadeia alimentar e a biodiversidade local.
O trabalho de Padilha e Preuss serve como um alicerce inestimável para futuras pesquisas e políticas de conservação. Ao sistematizar os vestígios históricos, eles fornecem uma base para compreender a dimensão da perda e para direcionar esforços de restauração ecológica, criação de corredores de vida silvestre e programas de educação ambiental. A esperança é que, com esses dados, Santa Catarina possa, um dia, sonhar com o retorno desse magnífico felino aos seus domínios naturais, reforçando a importância de proteger o que resta e restaurar o que foi perdido.
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Fonte: https://g1.globo.com