Historicamente, a eleição para o Senado em Santa Catarina costumava ocupar um papel coadjuvante no cenário político estadual, frequentemente ofuscada pela disputa ao governo. Contudo, o pleito de 2026 se desenha com um protagonismo inédito, impulsionado pela entrada inesperada de Carlos Bolsonaro na corrida por uma das cadeiras senatórias. A chegada do político carioca, figura central da família Bolsonaro, imediatamente rotulada como a de um "forasteiro" por seus adversários, deflagrou um racha profundo e complexo dentro do Partido Liberal (PL) e na ampla base da direita catarinense nos meses que antecederam as definições das candidaturas.
Essa movimentação estratégica de Carlos Bolsonaro teve um impacto sísmico, reconfigurando alianças e prioridades. Com a percepção de que uma vaga ao Senado estaria pré-definida para o "filho 02" do ex-presidente Jair Bolsonaro, a dinâmica política estadual foi drasticamente alterada. Apoios e coligações foram moldados em função dessa nova realidade, empurrando, inclusive, a própria disputa pelo governo catarinense para um segundo plano em determinado momento. A eleição para o Senado, antes discreta, ascendeu ao centro das atenções, tornando-se um palco de articulações intensas e disputas ideológicas acirradas.
Cenário eleitoral em debate: os números da pesquisa Quaest
A segunda pesquisa Quaest para o Senado de Santa Catarina, divulgada em setembro, trouxe uma fotografia detalhada e reveladora da corrida. Os números apontaram para um cenário de alta competitividade e indefinição no topo. Carol De Toni (PL) registrou 17% das intenções de voto, seguida de perto por Carlos Bolsonaro (PL), com 16%, e Esperidião Amin (PP), que obteve 15%. É crucial destacar que, dentro da margem de erro do levantamento, os três primeiros colocados se encontravam em um empate técnico, indicando a ausência de um líder isolado e a volatilidade do eleitorado catarinense.
A complexidade da disputa se acentuou ainda mais com a inclusão de Décio Lima (PT), que apareceu com 10% das intenções de voto. A análise da pesquisa mostrou que, ao considerar os quatro primeiros, Carlos Bolsonaro, Esperidião Amin e Décio Lima também estavam tecnicamente empatados entre si, solidificando o quadro de incerteza. Adicionalmente, um dado significativo revelado pela Quaest indicou que 38% dos eleitores ainda podiam mudar de voto até o dia 4 de outubro, enquanto 62% declaravam ter uma escolha definitiva. Essa considerável parcela de eleitores com intenções de voto maleáveis sugeria que a reta final da campanha seria determinante para a consolidação de candidaturas e a atração de indecisos.
O epicentro do racha: a disputa no PL e o realinhamento da direita
A chegada de Carlos Bolsonaro a Santa Catarina provocou um terremoto político, cujo epicentro foi o Partido Liberal. Carol de Toni, que em 2022 havia sido a deputada federal mais votada do estado, viu sua pré-candidatura ao Senado ser questionada internamente no PL, no início de 2026. A legenda começou a articular a possibilidade de reservar as vagas para o vereador carioca e o experiente Esperidião Amin, numa tentativa de formar uma robusta coligação com o Progressistas (PP). Diante da aparente inviabilidade de sua candidatura pelo PL, Carol de Toni anunciou em fevereiro que deixaria o partido para buscar uma nova legenda. Sua decisão ganhou ainda mais notoriedade e significado político com o apoio público de Michelle Bolsonaro, esposa do ex-presidente Jair Bolsonaro e madrasta de Carlos, expondo as fissuras internas não só no partido, mas também no próprio círculo familiar dos Bolsonaros.
Esperidião Amin, figura de peso na política catarinense e presidente do PP no estado, inicialmente fazia parte da estratégia de unificação da direita. O plano original previa que o governador Jorginho Mello, presidente do PL catarinense e candidato à reeleição, indicaria o nome de Carol de Toni, enquanto Jair Bolsonaro apoiaria Amin ao Senado. Contudo, essa articulação foi publicamente desfeita quando Flávio Bolsonaro, influente nome do PL, usou as redes sociais para confirmar que os candidatos do partido seriam seu irmão, Carlos, e Carol de Toni. Publicamente escanteado, Amin, que preside o PP catarinense, buscou novas alianças, coligando com o PSD e anunciando apoio a João Rodrigues para o governo estadual. Apesar desse distanciamento de Jorginho Mello e do PL local, Amin manteve uma posição estratégica ao defender o voto em Flávio Bolsonaro para a presidência, demonstrando a complexidade das composições políticas e a capacidade de costurar apoios em diferentes níveis hierárquicos.
Estratégias e alianças: o impacto da chegada do "forasteiro"
Carlos Bolsonaro, consolidado por sete mandatos como vereador no Rio de Janeiro, alterou seu título eleitoral para Santa Catarina em dezembro de 2025. Esse movimento, embora legalmente em conformidade, enviou um claro recado político: tanto para apoiadores quanto para opositores, a mudança sinalizava que ele seria a escolha prioritária do PL para o Senado. Mais amplamente, a iniciativa foi interpretada como uma estratégia do Partido Liberal para expandir sua influência e aumentar o número de cadeiras no Congresso Nacional a partir da legislatura de 2027, utilizando a força eleitoral do clã Bolsonaro em um estado ideologicamente alinhado.
Com a chapa do PL aparentemente "fechada", os partidos e candidatos que não encontraram espaço na aliança principal da direita precisaram se realinhar. Esperidião Amin, por exemplo, uniu-se a uma coligação que incluía o MDB e o PSD. Dentro dessa nova formação, o deputado estadual Lunelli (MDB) emergiu como candidato ao Senado, apostando na estratégia do "voto casado" – uma tática que busca incentivar o eleitor a votar em um conjunto de candidatos de uma mesma chapa ou aliança para diferentes cargos, maximizando as chances de eleição de todo o grupo e evitando a dispersão de votos.
No campo da esquerda, a busca por uma vaga no Senado, após anos de menor representatividade em Santa Catarina, concentrou-se na candidatura de Décio Lima (PT). Segundo colocado nas eleições para o governo em 2022, Décio soube capitalizar a pulverização de candidaturas de direita naquela disputa, que contava com nomes do PL, União Brasil, PP e Republicanos. Em 2026, a estratégia se repetiu: a esquerda se unificou em torno da chapa de Décio Lima, com o apoio de Afrânio Boppré (PSOL), buscando avançar em meio à expectativa de uma nova fragmentação dos votos da direita. Essa coesão estratégica visa consolidar o eleitorado progressista e garantir uma representação robusta no Senado Federal.
Os nomes na corrida ao Senado por Santa Catarina em 2026
A eleição para o Senado em Santa Catarina em 2026 apresenta um leque diversificado de postulantes, refletindo a pluralidade política do estado e a intensidade da disputa. Entre os candidatos confirmados que almejam uma das cobiçadas vagas, destacam-se Afrânio Boppré (PSOL), Ana Lucia da Silveira Machado (UP), Carlos Bolsonaro (PL), Carol (PCO), Carol de Toni (PL), Décio Lima (PT), Esperidião Amin (PP), Jeferson Rocha (PRD), Joaninha de Oliveira (PSTU), Lunelli (MDB), Marcos Dorval (PSTU), Marlene Soccas (UP) e Túlio de Amorim Pfuetzenreiter (Missão).
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Fonte: https://g1.globo.com