Um cenário alarmante tem se desenhado no litoral catarinense em 2026, com o registro de mais de 40 mortes de toninhas – a menor espécie de golfinho do Brasil. Entre janeiro e 15 de agosto, um total de 43 desses pequenos cetáceos foram encontrados mortos nas praias do Litoral Norte de Santa Catarina. A toninha (Pontoporia blainvillei), uma espécie criticamente em perigo de extinção segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), enfrenta uma batalha cada vez mais difícil por sua sobrevivência, e os números recentes reforçam a urgência de ações de proteção.
A toninha: O menor cetáceo do Brasil sob ameaça
A toninha, cientificamente conhecida como <i>Pontoporia blainvillei</i>, é um golfinho costeiro que se destaca por seu tamanho reduzido, sendo a menor espécie de golfinho de água salgada encontrada na costa brasileira. Com um corpo robusto, cabeça pequena e um bico longo e fino, ela se adapta perfeitamente aos ambientes rasos e turvos dos estuários e águas costeiras onde habita, desde o Espírito Santo até o sul da Argentina. Sua pelagem varia de cinza-claro a marrom-escura, o que a ajuda a se camuflar. No entanto, sua natureza discreta e seu habitat próximo à costa a tornam particularmente vulnerável às pressões humanas, culminando na sua classificação como “criticamente em perigo” desde 2014, um estágio anterior à extinção na natureza.
Os números alarmantes no litoral de Santa Catarina
A situação em Santa Catarina reflete a grave crise enfrentada pela espécie. Dos 44 registros de toninhas emcalhadas no período de janeiro a 15 de agosto de 2026, apenas um animal foi resgatado com vida, evidenciando a dificuldade de intervenção eficaz após o encalhe. Este dado é particularmente preocupante quando comparado ao mesmo período de 2025, quando foram registrados 38 encalhes da espécie. Em todo o ano anterior, 95 toninhas foram encontradas mortas no litoral catarinense, indicando uma tendência de aumento que sublinha a intensificação das ameaças e a necessidade de medidas mais robustas de conservação. A coleta e análise dessas informações são realizadas por instituições como a Unidade de Estabilização de Animais Marinhos da Univali.
A Unidade de Estabilização de Animais Marinhos da Univali, localizada em Penha, Santa Catarina, desempenha um papel crucial como executora do Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Santos (PMP-BS). Este projeto, de abrangência nacional, monitora o litoral entre Barra Velha (SC) e Saquarema (RJ), com o objetivo de avaliar os impactos das atividades de exploração e produção de petróleo e gás sobre as aves, tartarugas e mamíferos marinhos. Por meio de necropsias, exames e coleta de amostras biológicas, a equipe do PMP-BS da Univali gera dados biométricos e sanitários vitais, expandindo o conhecimento científico sobre a população local de toninhas e identificando as causas de mortalidade para mitigar os riscos na costa.
Concentração de encalhes: Um foco no Litoral Norte
A área monitorada pelo PMP-BS em Santa Catarina estende-se de Barra Velha, no Norte do estado, até Governador Celso Ramos, na Grande Florianópolis. Todos os encalhes registrados em 2026 se concentraram exclusivamente no Litoral Norte, um trecho de costa particularmente vulnerável devido à intensa atividade pesqueira e ao desenvolvimento costeiro. As ocorrências se distribuem por sete cidades, revelando pontos críticos onde a interação entre as atividades humanas e a vida marinha é mais intensa. A análise dessa distribuição geográfica é fundamental para direcionar esforços de conservação e fiscalização em áreas de maior risco para a toninha.
A distribuição dos 43 casos de encalhe no Litoral Norte de Santa Catarina até agosto de 2026 demonstra uma concentração preocupante em algumas localidades específicas. As cidades mais afetadas incluem Penha, com 14 ocorrências, Barra Velha e Navegantes, ambas registrando 11 casos. Balneário Piçarras contabilizou 5 encalhes, enquanto Balneário Camboriú, Bombinhas e Itajaí tiveram um caso cada. Estes números, detalhados pelo PMP-BS, servem como um termômetro da saúde ambiental dessas regiões costeiras e um alerta para a necessidade de medidas de proteção localizadas.
Perda de futuro: Fêmeas gestantes entre as vítimas
Um dos aspectos mais dolorosos e preocupantes dos registros de 2026 é a inclusão de fêmeas adultas gestantes entre as vítimas. A equipe do PMP-BS recolheu duas delas em praias de Barra Velha em agosto. A primeira, uma fêmea de 25 quilos, foi encontrada em estado avançado de decomposição na Praia do Tabuleiro em 4 de agosto, com indícios de fratura e uma marca linear no rostro compatíveis com emalhe acidental em rede de pesca. O feto que ela gerava foi igualmente registrado. Dois dias depois, em 6 de agosto, outra fêmea gestante, pesando 27,5 quilos, foi encontrada morta na Praia do Grant, na mesma cidade. Ambas foram encaminhadas para necropsia na Unidade da Univali.
A perda de fêmeas gestantes representa um golpe devastador para a já ameaçada população de toninhas. A espécie possui um ciclo reprodutivo lento, com uma gestação de aproximadamente 11 meses e o nascimento de apenas um filhote a cada dois ou três anos. Esse baixo potencial reprodutivo significa que cada fêmea perdida, especialmente quando está gestando, tem um impacto desproporcional na capacidade de recuperação da espécie. Embora o estado de decomposição tenha dificultado a confirmação definitiva da causa da morte em alguns casos, a avaliação técnica frequentemente associa mortes de fêmeas gestantes em bom estado nutricional a eventos agudos, como o afogamento após o emalhe acidental em redes de pesca, intensificando a pressão sobre a continuidade da espécie.
As múltiplas frentes de ameaça e a urgência da conservação
A classificação da toninha como “criticamente em perigo” pelo ICMBio desde 2014 não é por acaso. Ela é resultado de uma combinação de fatores ambientais e antropogênicos que colocam a espécie à beira do colapso. A captura acidental em redes de emalhe é, sem dúvida, a principal ameaça. Estas redes, armadas na coluna d'água para pescar outras espécies, tornam-se armadilhas mortais para as toninhas, que não conseguem detectá-las e acabam se afogando. Além disso, a poluição marinha – por plásticos, efluentes domésticos e industriais, e substâncias químicas – degrada o habitat e compromete a saúde dos animais. A degradação do habitat costeiro, causada pela urbanização, desenvolvimento portuário e industrial, bem como a diminuição de suas fontes de alimento, completa o quadro de ameaças que se intensificam nas regiões costeiras onde as toninhas vivem.
Diante deste cenário crítico, o trabalho de projetos como o PMP-BS é fundamental. Através do monitoramento contínuo, coleta de dados biométricos e realização de necropsias, os pesquisadores conseguem não apenas dimensionar a magnitude do problema, mas também aprofundar o conhecimento científico sobre a espécie. Tais informações são cruciais para a elaboração e implementação de estratégias de conservação mais eficazes, incluindo a conscientização de comunidades pesqueiras, o desenvolvimento de artes de pesca menos impactantes e a promoção de políticas públicas voltadas à proteção marinha. A sobrevivência da toninha depende de um esforço conjunto e contínuo.
A situação da toninha em Santa Catarina é um chamado urgente para a ação e reflexão. Estes pequenos e frágeis golfinhos são sentinelas da saúde de nossos oceanos e sua luta é um espelho dos desafios ambientais que enfrentamos. É fundamental que a sociedade, autoridades e instituições trabalhem em conjunto para proteger não apenas a toninha, mas todo o ecossistema marinho. Quer se aprofundar em mais notícias sobre a natureza, o meio ambiente e os acontecimentos que moldam nossa região e o Brasil? Então, continue navegando pelo São José Mil Grau e mantenha-se informado sobre os temas que realmente importam!
Fonte: https://g1.globo.com