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Deixando para trás três décadas de uma vida policial intensa em Buenos Aires, Argentina, Marcela Murillo, de 55 anos, e Claudio Marcelo Galarza, de 57, encontraram um novo lar e uma nova vocação nas praias ensolaradas de Canasvieiras, em Florianópolis. A região, há muito tempo um refúgio querido pelos argentinos em Santa Catarina, agora abriga a cafeteria do casal, um pedaço autêntico da cultura platina na capital catarinense. Contudo, além do aroma convidativo das medialunas e do café, a iminência da próxima Copa do Mundo, em 2026, traz à tona um misto de nostalgia e uma tensão palpável, especialmente com a expectativa do que pode ser a última participação de Lionel Messi no torneio mais prestigiado do futebol mundial.

A transição de Buenos Aires para a Ilha da Magia

A decisão de Marcela e Claudio de trocar a agitada capital argentina pela tranquilidade litorânea de Florianópolis não foi impulsiva. Após anos de férias frequentes na região, que se tornaram um refúgio para o casal em busca de paz e qualidade de vida, a aposentadoria em 2021 selou a mudança. A vida como policiais na Argentina, uma carreira de 30 anos marcada por desafios e responsabilidades, foi substituída pelo ritmo mais calmo e acolhedor de Canasvieiras. Esse planejamento cuidadoso reflete o desejo de uma aposentadoria serena, longe do estresse inerente à profissão que os acompanhou por tanto tempo.

A adaptação, no entanto, não foi apenas para o casal. A filha mais nova, que na época da mudança tinha apenas 10 anos e não falava uma palavra em português, embarcou na aventura com os pais. Hoje, aos 15 anos, ela é considerada uma legítima 'manezinha', termo carinhoso para quem nasce ou se integra profundamente à cultura de Florianópolis. Marcela e Claudio observam com orgulho a fluidez da filha com o idioma e a linguagem corporal das brasileiras, um testemunho da bem-sucedida imersão cultural. A única exceção, talvez, seja a paixão inabalável pelo futebol, uma herança que ela mantém firmemente conectada às suas raízes argentinas.

A cafeteria que conquistou paladares e corações

Embora a mudança para o Brasil não tivesse, inicialmente, o objetivo de abrir um negócio, o espírito empreendedor de Marcela e Claudio falou mais alto. Começaram modestamente, em um ponto menos visível nos fundos de uma galeria, o que restringia sua clientela principalmente a conterrâneos e um pequeno círculo de conhecidos. Com o tempo e a dedicação, o negócio prosperou e o casal conseguiu se mudar para um local com maior visibilidade, atraindo agora uma clientela mista e fiel, composta por argentinos, brasileiros e turistas de diversas partes.

O cardápio da cafeteria é um convite à culinária argentina, com clássicos como empanadas suculentas, pizzas artesanais e pães recheados. Contudo, o verdadeiro destaque e orgulho da casa são as medialunas de manteiga. Claudio explica que as medialunas são a versão argentina do croissant, mas com uma doçura e uma textura que as tornam únicas e irresistíveis. Ele as descreve como o 'nosso produto essência, primordial. O que aqui no Brasil vocês chamam de carro-chefe'. O sucesso é tanto que, durante a alta temporada de verão, a produção decola, abastecendo outras lojas da região e solidificando o lugar das medialunas no paladar dos brasileiros, tornando-se um símbolo da fusão cultural que o casal representa.

Futebol, paixão e a "última Copa" de Messi

A intensidade da Copa de 2022 e a promessa cumprida

A paixão de Claudio pela seleção argentina não é apenas um sentimento, mas algo gravado na pele, literalmente. Ao final da Copa do Mundo de 2022, ele fez uma promessa audaciosa: tatuar a taça do título caso a Argentina se sagrasse campeã. Um dia após a emocionante vitória da Albiceleste, Claudio cumpriu sua palavra, eternizando o momento. Marcela recorda, entre risos e um certo nervosismo, o sufoco de acompanhar a final daquela Copa em Canasvieiras, um bairro que foi literalmente tomado por uma "onda de compatriotas". A rua, ela descreve, "ficou inundada de argentinos", e o nível de tensão era tão alto que ela brinca: "Eu achei que ele [Cláudio] fosse morrer de tanta tensão no último jogo".

Nostalgia e melancolia pela despedida do ídolo

Para o torneio que se aproxima, o sentimento que domina o casal é um misto de nostalgia e uma melancolia profunda. Esta próxima Copa do Mundo é amplamente especulada como a última de Lionel Messi, um craque cujo legado transcende as quatro linhas do campo. A despedida iminente do capitão argentino é particularmente dolorosa para Marcela e Claudio. "É triste. Ele é um ídolo que temos", lamenta Claudio, enfatizando que Messi não é apenas um jogador excepcional, mas uma "coloraço", uma expressão que denota uma pessoa íntegra, de bom caráter. "Um cara do bem, não há igual a ele", complementa, destacando a admiração que o casal, e milhões de argentinos, nutrem pelo camisa 10, cuja presença em campo simboliza a esperança e o orgulho de uma nação.

Expectativas para 2026: cautela e concorrência acirrada

Diferente do clima de "já ganhou" que permeou a campanha de 2022, Claudio adota uma postura mais cautelosa e realista ao falar sobre o favoritismo e a chance de um bicampeonato consecutivo para a Albiceleste. Para ele, o cenário atual da Copa do Mundo está muito mais aberto, e a disputa promete ser acirrada. Claudio aponta três grandes potências como os principais contendores ao título: Argentina, Brasil e Espanha, reconhecendo a força e o talento que cada uma dessas seleções possui. Essa visão, mais ponderada, reflete não apenas o amadurecimento das expectativas após a glória de 2022, mas também a consciência da qualidade dos adversários no cenário do futebol mundial, onde a busca pela taça é sempre um desafio monumental.

A trajetória de Marcela e Claudio é um vibrante mosaico de experiências: da rigidez da vida policial em Buenos Aires à serenidade empreendedora em Florianópolis, sempre pontuada pela paixão inabalável pelo futebol e pela Argentina. Eles representam a alma de muitos que, ao fazer de Santa Catarina um novo lar, mantêm viva a cultura e as tradições de sua terra natal, enquanto se integram plenamente à vida brasileira. Em meio a empanadas e medialunas, a expectativa pela Copa do Mundo de 2026 e a despedida de um ídolo como Messi adicionam uma camada emocionante a esta história de transição, resiliência e, acima de tudo, amor pelo futebol e pelas raízes.

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Fonte: https://g1.globo.com

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