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Um incidente chocante abalou a credibilidade do sistema de identificação e liberação de corpos em Santa Catarina, levando ao afastamento de dois servidores do Instituto Médico Legal (IML) de Florianópolis. A Polícia Científica de Santa Catarina confirmou nesta segunda-feira (11) a medida, que se estenderá por 60 dias, após a descoberta de uma gravíssima falha: a troca de corpos que resultou no sepultamento indevido de duas pessoas por famílias que acreditavam estar velando seus entes queridos. A confusão, que culminou em um drama humano e institucional, expõe falhas críticas nos procedimentos de um órgão vital para a justiça e o luto adequado das famílias.

O episódio, ocorrido em 10 de abril, desencadeou uma série de eventos que revelaram não apenas um erro primário na identificação, mas também questionamentos sobre a conduta dos profissionais envolvidos. Enquanto a Polícia Científica busca "garantir a adequada condução do processo administrativo e a preservação da apuração", a sociedade e, principalmente, as famílias afetadas exigem respostas claras e responsabilização. Este caso lança luz sobre a necessidade imperativa de rigor nos protocolos e de transparência nas investigações, especialmente em um contexto tão sensível como o de um instituto médico legal.

A origem da falha e o drama dos sepultamentos trocados

A cronologia dos fatos revela a dimensão da tragédia. No dia 9 de abril, Juliano Henrique Guadagnin, de 24 anos, perdeu a vida em um acidente de motocicleta. No mesmo dia, os corpos de outras duas vítimas de homicídio foram encontrados: Patrick Nunes Ferreira e Denner Dario Colodina. Os três corpos foram encaminhados ao IML de Florianópolis para os procedimentos de praxe, incluindo identificação e autópsia, antes da liberação para as respectivas famílias.

A falha catastrófica ocorreu na liberação dos corpos em 10 de abril. De forma inexplicável e inaceitável, os corpos foram trocados, resultando em uma sequência de erros que culminou em sepultamentos equivocados. Patrick Nunes Ferreira foi sepultado no Cemitério do Itacorubi, em Florianópolis, no lugar de Denner Dario Colodina. Por sua vez, Denner Dario Colodina foi sepultado no Cemitério do Rio Vermelho, em um local destinado a Juliano Henrique Guadagnin da Silva. Juliano, a vítima do acidente, permaneceu retido no IML, sem que sua família pudesse realizar o velório e sepultamento que lhe eram devidos. A dor da perda foi agravada pela perplexidade de sepultar um desconhecido, com o caixão fechado, e pela incerteza sobre o paradeiro do verdadeiro ente querido.

A chocante alegação de tentativa de ocultação do erro

O caso ganhou contornos ainda mais alarmantes com a denúncia feita pela agente funerária Aline Thaise Nunes Mikna. Segundo ela, servidores públicos do IGP (antigo nome da Polícia Científica) teriam sugerido que o erro na troca dos corpos fosse encoberto. A proposta seria de manter os sepultamentos indevidos, lacrando as urnas e entregando-as às famílias como se nada tivesse acontecido, evitando, assim, que "nenhum dos três casos seriam descobertos". A agente funerária, que trabalhou na remoção dos dois corpos trocados, afirmou ter se recusado a participar de tal ardil. Essa grave acusação, se comprovada, representa uma profunda violação ética e um crime contra a fé pública e a dignidade das famílias enlutadas.

A Polícia Científica de Santa Catarina, em resposta à alegação, negou veementemente que tal proposta tenha sido feita por seus servidores. A divergência entre as versões intensifica a complexidade do caso e sublinha a urgência de uma investigação transparente e imparcial. A apuração interna, conduzida pela Corregedoria, foi aberta no dia seguinte aos sepultamentos equivocados, em 11 de abril, com o objetivo de "apurar detalhadamente os fatos, identificar responsabilidades e adotar as medidas administrativas cabíveis".

Como o erro foi descoberto e o sofrimento das famílias

A descoberta do erro não partiu do IML, mas sim da insistência de um familiar. O engano veio à tona quando um familiar de uma das vítimas compareceu ao Instituto Médico Legal para a identificação de um corpo que, supostamente, deveria estar lá. Mônica Raquel Guadagnin, mãe de Juliano Henrique, vivenciou o drama em primeira mão. Após o velório e sepultamento de um corpo que acreditava ser de seu filho – cerimônias que ocorreram às 14h e 17h, respectivamente –, ela recebeu um telefonema da funerária. A comunicação era genérica: "um problema com o IML", sem revelar a magnitude da confusão.

A angústia e a indignação da família de Juliano, assim como das outras famílias envolvidas, são imensuráveis. Saber que se velou e sepultou um desconhecido, enquanto o corpo do verdadeiro ente querido estava retido ou indevidamente trocado, representa uma dupla dor: a da perda e a da violação do direito a um luto digno e respeitoso. O processo de exumação dos corpos, realizado no dia 13 de abril, para que, após nova passagem pelo IML, pudessem ser corretamente identificados e sepultados em seus locais devidos, adicionou uma camada de trauma e desrespeito a um momento já tão delicado.

A disputa por responsabilidades e os próximos passos da investigação

A apuração sobre as responsabilidades pelo erro já gerou controvérsia. Um relatório de plantão do IML, ao qual a NSC TV teve acesso, imputa a responsabilidade ao agente funerário. O documento alega que, apesar de a localização exata dos corpos ter sido demonstrada, o agente funerário teria removido os corpos de Denner (corretamente) e Patrick (equivocadamente, julgando ser Juliano). Essa remoção teria ocorrido enquanto a servidora do IML realizava o armazenamento de cartões FTA (usados para coleta de material genético) e a higienização da sala de necrópsia.

Contrariando essa versão, a agente funerária Aline Thaise Nunes Mikna reitera que os documentos de liberação estavam corretos, mas os corpos estavam trocados. O advogado da funerária, Juliano Duarte Campos, reforça essa perspectiva, argumentando que a responsabilidade pela correta entrega dos corpos é dos servidores públicos. Ele enfatiza que o agente funerário "não reconhece, o agente recebe o corpo. Quem tem que ter cuidado e o dever de polícia de fiscalizar é o funcionário do IGP e não o agente da funerária". Este embate de versões será crucial para a investigação e para determinar quem, de fato, falhou em suas atribuições. A apuração da Corregedoria deve ser minuciosa, analisando filmagens, registros e depoimentos para elucidar cada detalhe.

Implicações e a necessidade de reestruturação

Este incidente não é apenas um caso isolado de erro; ele aponta para possíveis fragilidades estruturais e processuais dentro do Instituto Médico Legal. A confiança pública em instituições como o IML, que lidam com a vida e a morte, é fundamental. Erros dessa magnitude não apenas causam danos irreparáveis às famílias, mas corroem a percepção de competência e seriedade do Estado. O afastamento dos servidores é uma medida inicial para garantir a lisura da investigação, mas o caso exige uma análise profunda dos protocolos internos, da capacitação dos funcionários e da supervisão das operações diárias.

Para além das punições administrativas que possam advir, é imperativo que o sistema seja revisto para evitar que tais falhas se repitam. A introdução de tecnologias de identificação mais robustas, a duplicação de checagens, o treinamento contínuo de equipes e a garantia de condições de trabalho adequadas são medidas essenciais. A dignidade humana, mesmo após a morte, é um direito inalienável, e as instituições públicas têm o dever de garantir que esse direito seja respeitado em todas as suas etapas.

O São José Mil Grau continuará acompanhando de perto os desdobramentos deste caso, trazendo as atualizações da investigação e as vozes das famílias afetadas. Para se manter informado sobre este e outros temas relevantes de São José e região, continue navegando em nosso portal, onde a notícia é tratada com profundidade e o compromisso com a verdade é inegociável.

Fonte: https://g1.globo.com

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