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Florianópolis, cidade célebre por suas belezas naturais, praias paradisíacas e o apelido de 'Ilha da Magia', prepara-se para revelar um lado mais sombrio e misterioso. Nesta quinta-feira, 7 de março, o público terá a oportunidade de mergulhar no universo de "Edifício Bonfim", um longa-metragem de terror que promete explorar as lendas e mitos que há muito habitam o imaginário popular da capital catarinense. Gravado com um elenco predominantemente local e embalado por uma trilha sonora genuinamente 'manezinha', o filme oferece uma perspectiva única sobre o folclore da região, transformando o cenário idílico em palco para narrativas de suspense e pavor. A estreia acontece no Paradigma CineArte, marcando um momento significativo para o cinema regional.

"Edifício Bonfim": onde a magia da ilha encontra o terror urbano

A trama de "Edifício Bonfim" centra-se nos moradores de um edifício fictício na capital, que, de repente, se veem envolvidos em uma série de eventos estranhos e aterrorizantes. A narrativa tece uma tapeçaria de sequestros misteriosos, aparições de criaturas sobrenaturais, a presença enigmática de bruxas e a ameaça de assassinos em série, elementos que se entrelaçam para criar uma atmosfera de constante tensão e medo. O filme busca não apenas entreter, mas também provocar o espectador, misturando a fantasia do folclore local com o terror psicológico de situações cotidianas levadas ao extremo, questionando a fina linha entre o real e o inexplicável em um contexto urbano familiar.

A visão da diretora e a inspiração em Franklin Cascaes

A direção de Lígia Walper é um dos pilares do longa, que, segundo ela, propõe-se a borrar as fronteiras entre realidade, fantasia e sonho. Essa fusão intencional visa causar um "estranhamento" no público, convidando-o a questionar a percepção do que é real e o que reside nas profundezas do inconsciente coletivo. Uma das fontes primárias de inspiração para a obra é o legado de <b>Franklin Cascaes</b> (1908-1983), um dos mais importantes pesquisadores, folcloristas, escritor e artista plástico catarinenses. Conhecido por seu trabalho incansável em registrar, por meio de desenhos e narrativas detalhadas, as crenças e tradições populares da ilha, Cascaes catalogou um vasto universo de bruxas, lobisomens, "bichos-homens" e outras entidades que habitam o imaginário açoriano. Sua obra é fundamental para entender a riqueza cultural de Florianópolis e oferece um manancial autêntico para produções que buscam explorar as raízes místicas da região, conferindo a "Edifício Bonfim" uma base sólida e culturalmente relevante.

Três histórias, um fio de pavor

Ao longo da narrativa, o público será conduzido por três histórias distintas, mas intrinsecamente conectadas, que se entrelaçam para formar a trama central do "Edifício Bonfim": “Criatura”, “Trilha da Costa” e “Formando”. Embora os detalhes específicos de cada segmento permaneçam envoltos em mistério para evitar "spoilers", pode-se inferir que “Criatura” pode explorar a materialização de medos ancestrais ou entidades folclóricas que emergem da paisagem mística da ilha. “Trilha da Costa” talvez remeta aos perigos e segredos escondidos nas paisagens naturais costeiras de Florianópolis, onde a beleza esconde armadilhas e lendas. Já “Formando” poderia mergulhar em rituais ou transformações sombrias ligadas a mitos locais de iniciação, pactos com seres sobrenaturais ou até mesmo a corrupção do espírito humano. Essa estrutura de histórias que se cruzam permite ao filme explorar diferentes facetas do terror, mantendo a coerência temática com as lendas da Ilha da Magia e a complexidade da psique humana.

Florianópolis: cenário de lendas e o berço "manezinho"

A Ilha de Santa Catarina é, por excelência, um caldeirão cultural onde as tradições açorianas se misturam com a exuberância natural e um palpável misticismo. Os "manezinhos", como são carinhosamente chamados os nativos da capital, são guardiões desses costumes, da culinária típica, do sotaque peculiar e, claro, das lendas que permeiam o dia a dia e dão à ilha sua aura de "magia". A fama de "Ilha da Magia" não é à toa; por gerações, histórias de bruxas que se reúnem à noite para festas secretas em sambaquis, de "lobisomens" que assombram os caminhos da costa e de outras criaturas fantásticas têm sido contadas e recontadas, enraizadas na cultura local. O filme "Edifício Bonfim" bebe diretamente dessa fonte, utilizando a autenticidade cultural manezinha para dar vida e credibilidade aos seus elementos de terror, conectando-se profundamente com a identidade da cidade e de seu povo.

A figura da bruxa, em particular, é um elemento central e distintivo do folclore de Florianópolis. Longe da imagem estereotipada europeia da velha corcunda com chapéu pontudo, as bruxas manezinhas são frequentemente retratadas como mulheres sedutoras, com poderes mágicos, capazes de fazer e desfazer feitiços, pregar peças e até roubar barcos ou transformar crinas de cavalos em nós impossíveis de desatar – os famosos nós de bruxa. Essa personificação única do mal e do sobrenatural, tão vívida nos contos de Cascaes e nas tradições orais, confere a "Edifício Bonfim" um tempero regional inconfundível, distanciando-o dos clichês do gênero e ancorando-o firmemente na rica tapeçaria cultural da ilha, tornando-o um produto autêntico do terror brasileiro.

Reconhecimento e a força do cinema catarinense

O sucesso de "Edifício Bonfim" já é uma realidade antes mesmo de sua estreia para o grande público. O longa conquistou o prêmio de Melhor Filme Brasileiro e Melhor Atriz, com a talentosa <b>Gabi Petry</b>, no <i>Djanho Fantástico Festival Internacional de Cinema de Curitiba</i>, um evento que celebra o cinema de gênero, especialmente o terror e a fantasia. Esse reconhecimento não só valida a qualidade da produção e a visão criativa da equipe, mas também destaca o crescente potencial do cinema catarinense no cenário nacional e internacional, mostrando que as histórias locais têm força para ressoar além das fronteiras do estado, alcançando uma audiência mais ampla e crítica.

A concretização de projetos como "Edifício Bonfim" é um testemunho da importância de políticas de fomento à cultura e ao audiovisual. O filme foi viabilizado através do <b>Prêmio Catarinense de Cinema</b>, em parceria com o <b>Fundo Setorial do Audiovisual</b> e a <b>Agência Nacional do Cinema (Ancine)</b>. Essas instituições desempenham um papel crucial no apoio financeiro e estrutural a produções independentes, garantindo que talentos e narrativas regionais possam ganhar vida e alcançar o público. A equipe técnica e o elenco, composto por atores catarinenses como Vinícius Wester, Sandro Maquel, Welington Moraes, Sarah Motta, Matteo Mazzon e Sérgio Barreto, reforçam o compromisso com a valorização dos artistas locais, criando uma cadeia produtiva que beneficia toda a região e fortalece a identidade cultural do estado.

A autenticidade da produção se estende à sua trilha sonora, um componente essencial para a imersão no universo do terror. Assinada pelos renomados Carlos Trilha e Murilo Valente, a trilha conta com composições da icônica banda catarinense <b>Dazaranha</b>. Conhecida por sua mistura vibrante de reggae, rock e ritmos brasileiros, a Dazaranha possui uma forte conexão com a cultura e o público de Santa Catarina, emprestando à "Edifício Bonfim" uma sonoridade que evoca as paisagens e o espírito da ilha. Essa escolha musical não só enriquece a experiência sensorial do espectador, mas também solidifica a identidade musical do filme como um produto genuinamente local e de alta qualidade.

Pontos turísticos: do cartão-postal ao palco do macabro

Florianópolis, com suas paisagens de tirar o fôlego, é naturalmente um cenário cinematográfico desejável. "Edifício Bonfim" aproveita essa beleza, mas a subverte, transformando locais icônicos em cenários de medo e mistério. Imagens aéreas destacam pontos conhecidos como a serena Lagoa da Conceição, a imponente Ponte Hercílio Luz e a pitoresca Praia de Itaguaçu, mostrando a ilha sob uma luz diferente. Essa escolha narrativa de situar o terror em um paraíso conhecido amplifica a sensação de estranhamento e vulnerabilidade, demonstrando que o macabro pode emergir nos lugares menos esperados, até mesmo onde se espera apenas tranquilidade, beleza e um estilo de vida descontraído.

Os 100 anos da Ponte Hercílio Luz: história e simbolismo

Um dos grandes símbolos de Florianópolis, a <b>Ponte Hercílio Luz</b>, que brilha em cenas do filme, celebra seu centenário de inauguração em 2026. Primeira conexão terrestre entre a Ilha de Santa Catarina e o continente, a ponte não é apenas uma obra de engenharia monumental; ela é um testamento vivo da história, da resiliência e da identidade da cidade. Inaugurada em 13 de maio de 1926, sua estrutura suspensa testemunhou a passagem de bondes, veículos de tração animal, pedestres, bicicletas, motos, carros e ônibus ao longo de décadas, acompanhando o desenvolvimento da capital. Após um longo período de interdição e uma complexa obra de restauração que durou anos, a ponte foi reaberta ao tráfego de veículos e pedestres, reafirmando seu status de cartão-postal e elemento vital na conexão da ilha com o resto do estado. Sua presença no filme adiciona uma camada de grandiosidade histórica e melancolia, como uma sentinela silenciosa sobre os mistérios e as histórias que a ilha guarda, tornando-a quase uma personagem por si só.

A estreia de "Edifício Bonfim" no Paradigma CineArte, em Florianópolis, e sua subsequente exibição em outras grandes cidades como Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro, representa um marco para o cinema regional e para a cultura catarinense. É um convite irrecusável para desvendar os mitos da Ilha da Magia sob uma nova e aterrorizante ótica, mostrando que, por trás de toda beleza e tradição, pode haver um mistério esperando para ser revelado, uma história pronta para arrepiar.

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Fonte: https://g1.globo.com

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