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Com a despedida do verão, as areias de Santa Catarina preparam-se para receber protagonistas anuais de uma das mais emblemáticas tradições do estado: os pescadores artesanais. É nesse período, entre os meses de maio e julho, que a tainha, peixe símbolo do litoral catarinense, empreende sua migração colossal, transformando praias em cenários de trabalho comunitário intenso e de um espetáculo natural que impressiona até mesmo os mais familiarizados com a cena. A safra da tainha não é apenas uma atividade econômica vital; ela representa a manutenção de um legado açoriano que ultrapassa dois séculos, entrelaçando profundamente a identidade cultural e o desenvolvimento socioeconômico das comunidades costeiras.

Neste ano, a temporada de pesca artesanal da tainha foi oficialmente aberta nesta sexta-feira, 1º de maio, e se estenderá até o final de julho. A expectativa é alta, especialmente com a recente definição de cotas de captura que foram ampliadas em 20% em comparação com as safras anteriores. Segundo dados divulgados pelo Ministério da Pesca e Aquicultura, o volume total autorizado para a captura chega a expressivas 8.168 toneladas, um aumento significativo que reflete otimismo e a necessidade de equilíbrio entre a exploração pesqueira e a sustentabilidade ambiental. Para contextualizar, em 2023, as embarcações de Santa Catarina registraram a captura de mais de 2,5 mil toneladas, demonstrando o potencial e a relevância da atividade para o estado.

Um legado cultural e econômico ancestral

A pesca da tainha é muito mais do que a simples captura de peixes; é um patrimônio vivo que molda a paisagem e a vida das comunidades pesqueiras. Desde 2012, a atividade é reconhecida como Patrimônio de Santa Catarina, e em 2019, sua importância cultural foi formalmente chancelada por lei como Patrimônio Cultural de Santa Catarina. Este reconhecimento sublinha a complexidade e a profundidade dessa prática, que engloba saberes tradicionais transmitidos de geração em geração, a valorização do trabalho coletivo e o respeito aos ciclos naturais.

A influência dos colonizadores açorianos, que chegaram ao estado há mais de 200 anos, é inegável. Eles trouxeram consigo técnicas de pesca e um profundo conhecimento do mar, que se adaptaram e prosperaram no litoral catarinense. A pesca da tainha se tornou o sustento de milhares de pessoas e uma força motriz na construção do estado. Hoje, essa herança se manifesta na forma como as comunidades se organizam, na cooperação essencial para o sucesso das pescarias e nas festividades que celebram a cada ano o retorno do peixe farto.

A rota migratória e a estratégia da pesca artesanal

O fenômeno da tainha em Santa Catarina está intrinsecamente ligado à sua jornada migratória. Os cardumes partem da Lagoa dos Patos, no Rio Grande do Sul, e rumam para o norte, buscando águas mais quentes para a desova, fugindo das frentes frias do inverno. Essa viagem anual transforma o litoral catarinense em um corredor vital para a espécie, e os pescadores, com sua sabedoria milenar, esperam pacientemente por sua passagem.

O papel fundamental dos 'olheiros'

A eficiência da pesca artesanal da tainha depende crucialmente do trabalho dos 'olheiros'. Esses vigias, posicionados estrategicamente em costões elevados ou diretamente na faixa de areia, têm a tarefa de avistar os densos cardumes. Com olhares aguçados e anos de experiência, eles identificam o momento ideal para a ação, sinalizando aos demais pescadores que já estão a postos, com suas embarcações e redes preparadas. A comunicação rápida e precisa é a chave para o sucesso.

A 'arrastada': um trabalho de união

Uma vez que o cardume é avistado e cercado, entra em cena a 'arrastada' – um método de pesca que personifica o espírito comunitário. As redes são puxadas colaborativamente por dezenas de pessoas: pescadores, moradores locais e até mesmo turistas que se encontram na praia e decidem participar dessa experiência autêntica. Essa força-tarefa humana, sincronizada e energizada pela expectativa da fartura, exemplifica a cooperação e a generosidade que caracterizam a cultura pesqueira de Santa Catarina.

Impacto territorial e a lista das praias da tainha

A safra da tainha se estende por todo o litoral catarinense, com concentrações notáveis em cidades como Florianópolis, Bombinhas, Laguna e Imbituba. A atividade é tão integrada à vida local que chega a influenciar a dinâmica de uso de algumas praias. Em Florianópolis, por exemplo, a Lei Municipal 10.020/2016 restringe a prática do surfe em determinadas áreas durante a temporada de pesca, garantindo que a tainha não seja afugentada e que os pescadores possam operar sem interferências.

Entre as principais praias que se destacam pela prática da pesca artesanal da tainha, com o uso de redes de arrasto e forte participação comunitária, estão:

Florianópolis

Campeche, Pântano do Sul, Lagoinha do Norte, Barra da Lagoa, Santinho, Ingleses, Praia Brava, Naufragados e Moçambique.

Bombinhas

Bombinhas, Bombas, Canto Grande, Mariscal e Sepultura.

Laguna

Farol de Santa Marta e Mar Grosso.

Imbituba

Praia do Rosa.

Gastronomia, festividades e a tainha no cotidiano

A chegada da tainha é sinônimo de festa. Durante a temporada, diversas celebrações são realizadas em homenagem ao peixe, sendo a Festa da Tainha, em Florianópolis, uma das mais célebres. Esses eventos são verdadeiros caldeirões de cultura e gastronomia locais, com pratos típicos que exaltam a versatilidade da tainha, apresentações culturais e muita música, atraindo moradores e turistas para celebrar a riqueza da culinária catarinense.

A tainha assada na brasa, recheada com farofa de camarão, é talvez a receita mais icônica, simbolizando a abundância e a criatividade gastronômica do estado. Mas a presença da tainha vai além das mesas festivas, permeando o cotidiano e até mesmo o folclore local. Cenas curiosas e divertidas já viralizaram nas redes sociais, como o registro de uma tainha de quase 7 kg que impressionou pescadores e se tornou um meme, ou a inusitada “Tainha da Sorte” de uma lotérica em Florianópolis, que prometia fortuna aos apostadores, aproveitando-se da popularidade e do simbolismo do peixe na capital.

O ciclo da tainha: economia, cultura e futuro

A pesca da tainha em Santa Catarina é um microcosmo que reflete a interdependência entre a natureza, a cultura e a economia. A cada ano, o ciclo migratório do peixe revigora não apenas os estoques pesqueiros, mas também a identidade e a subsistência de comunidades inteiras. A ampliação das cotas de captura para a temporada de 2024 é um indicativo do manejo e da gestão da atividade, buscando garantir que essa valiosa tradição possa continuar a ser celebrada por muitas gerações, equilibrando a exploração dos recursos com a conservação ambiental e cultural. É um testemunho da capacidade humana de coexistir e prosperar em harmonia com os ritmos da natureza, honrando um legado que é, ao mesmo tempo, sustento e alma do litoral catarinense.

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Fonte: https://g1.globo.com

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